13/01/2020

Vírus deixa Leishmaniose mais agressiva

Com informações da USP
Vírus deixa Leishmaniose mais agressiva
Outra esperança de tratar a leishmaniose está na planta medicinal canela-seca.
[Imagem: Ana Claudia Torrecilhas/J. P. Maçaneiro/Flora Digital]

Parasita com vírus

Pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, ligada à USP, descobriram que um vírus faz com que a leishmania - o protozoário causador da leishmaniose - torne-se mais agressiva aos humanos.

A leishmaniose tegumentar, transmitida ao ser humano pela picada das fêmeas do mosquito palha, causa lesões na pele. No entanto, nos casos mais graves, quando há a disseminação das feridas, as lesões passam a aparecer também nas mucosas, frequentemente no nariz, boca e garganta, podendo desfigurar o rosto do paciente. Neste estágio, conhecido como o da leishmaniose mucocutânea, a doença pode se tornar letal.

Os pesquisadores já tinham conhecimento de que leishmania, quando infectada com o vírus LRV (Leishmania RNA virus), era capaz de desenvolver os casos mais graves da doença. A pesquisa mostrou agora como o vírus possibilita ao protozoário se desenvolver de forma agressiva.

"Quando a leishmania infecta as pessoas fica uma queda de braço. Ela querendo sobreviver e nosso sistema imunológico tentando eliminar o parasita. Mas, quando a leishmania tem o vírus, ele 'desliga' alguns dos mecanismos do nosso sistema imunológico que combatem o parasita," destaca o pesquisador Renan Carvalho.

Vencendo o sistema imunológico

Quando a leishmania infectada com o LRV invade o corpo humano, o vírus ativa um receptor nas células chamado TLR3, o que faz com que o sistema imunológico comece a produzir a substância interferon do tipo 1. O interferon, por sua vez, induz a autofagia das células humanas, ou seja, o processo de degradação e reciclagem de componentes da célula.

Com isto, as células humanas ficam mais vulneráveis, já que a presença do interferon impede a ação do inflamassoma, um conjunto de proteínas do sistema imunológico que combate a leishmania.

"Como essa proteína que mata a leishmania está sendo silenciada pelo vírus, a leishmania consegue sobreviver melhor, proliferar melhor e causar aquela forma da doença mais grave que é a leishmaniose mucocutânea. O parasita migra para o rosto das pessoas, tanto para a boca quanto para o nariz, e desfigura o rosto do paciente," destaca Renan.

Novos tratamentos

A descoberta abre caminho para novas formas de combater a leishmaniose e tratar os pacientes.

"A gente propõe que, a partir de agora, o paciente que chegue com suspeita de leshmaniose, ele seja diagnosticado não apenas para ver se tem a leishmania, parasita, mas que seja também feita uma análise molecular para ver se a leishmania possui o vírus," disse Renan.

Caso diagnosticado com a leishmania portadora do vírus, o paciente deverá receber, além do tratamento convencional contra a leishmaniose, drogas capazes de combater também a ação do vírus. Essa medicação, no entanto, ainda está em fase de pesquisa.

Segundo o Ministério da Saúde, no Brasil são registrados anualmente cerca de 21 mil casos de leishmaniose tegumentar. A região Norte apresenta o maior número de casos, seguida das regiões Centro-Oeste e Nordeste.

Checagem com artigo científico:

Artigo: Leishmaniasis by subverting innate immunity via TLR3-mediated NLRP3 inflammasome inhibition
Autores: Renan V. H. de Carvalho, Djalma S. Lima-Junior, Marcus Vinícius G. da Silva, Marisa Dilucca, Tamara S. Rodrigues, Catarina V. Horta, Alexandre L. N. Silva, Patrick F. da Silva, Fabiani G. Frantz, Lucas B. Lorenzon, Marcos Michel Souza, Fausto Almeida, Lilian M. Cantanhêde, Ricardo de Godoi M. Ferreira, Angela K. Cruz, Dario S. Zamboni
Publicação: Nature Communications
Vol.: 10, Article number: 5273
DOI: 10.1038/s41467-019-13356-2

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