29/05/2020

Coração e cérebro comunicam-se constantemente

Redação do Diário da Saúde
Coração e cérebro comunicam-se constantemente
Esquerda: a taxa de detecção é reduzida durante a sístole (vermelho) em comparação com a diástole (azul). Direita: Na sístole, é suprimido um componente específico da consciência.
[Imagem: MPI CBS/PNAS]

Comunicação entre cérebro e coração

A dicotomia entre razão e coração tem estado presente não apenas na literatura mundial, mas também permeando grande parte das teorias científicas.

Na realidade, porém, qualquer dicotomia que se pudesse considerar haver entre cérebro e coração acaba de ruir: nosso cérebro e nosso coração comunicam-se constantemente.

Por exemplo, quando encontramos uma situação perigosa, os sinais do cérebro garantem que o coração bata mais rápido. Quando relaxamos, o coração também bate mais lentamente.

O que é menos sabido é que o vice-versa também funciona: os batimentos cardíacos também afetam o cérebro, embora os mecanismos subjacentes a essa interação não fossem claros.

Foram esses mecanismos, que sustentam como o coração influencia nossa percepção - o cérebro - e como esses mecanismos diferem entre as pessoas, que Esra Al e seus colegas do Instituto Max Planck de Ciências Cognitivas e do Cérebro Humano (Alemanha) acabam de descobrir.

Batimentos cardíacos e consciência

O primeiro mecanismo estabelece uma relação entre a fase do batimento cardíaco e a experiência consciente.

Em um ritmo regular, o coração se contrai na chamada fase sistólica e bombeia sangue para o corpo. Numa segunda fase, a fase diastólica, o sangue flui de volta e o coração se enche novamente. A mesma equipe já havia descoberto anteriormente que a percepção de estímulos externos muda com o batimento cardíaco - na sístole, temos menos probabilidade de detectar um estímulo elétrico fraco no dedo em comparação com a diástole.

Agora, Esra Al e seus colegas descobriram o motivo dessa mudança na percepção: A atividade cerebral mudando constantemente ao longo do ciclo cardíaco.

Na sístole, um componente específico da atividade cerebral, chamado P300, e que está associado à consciência, é simplesmente suprimido. Em outras palavras, parece que, na sístole, o cérebro garante que certas informações sejam mantidas fora da experiência consciente.

O cérebro parece levar em consideração o pulso que inunda o corpo na sístole e prevê que as alterações corporais associadas ao pulso "não são reais", mas devidas à pulsação. Normalmente, isso nos ajuda a não ser constantemente perturbados por nosso pulso. No entanto, quando se trata de estímulos fracos que coincidem com a sístole, podemos não detectá-los, embora sejam reais.

Separação do mundo interior do mundo exterior

Durante suas investigações sobre interações coração-cérebro, Al e seus colegas também revelaram um segundo efeito do batimento cardíaco na nossa percepção: Se o cérebro de uma pessoa apresenta uma resposta mais forte ao batimento cardíaco, o processamento do estímulo no cérebro é atenuado - a detecção do estímulo enfraquece.

"Isso parece ser o resultado de direcionar nossa atenção entre sinais ambientais externos e sinais corporais internos," explica Al. Em outras palavras, um grande potencial evocado pelos batimentos cardíacos parece refletir um "estado de espírito", no qual estamos mais focados no funcionamento dos nossos órgãos internos, como a circulação sanguínea, porém menos conscientes dos estímulos do mundo exterior.

Os resultados têm implicações não apenas para a nossa compreensão das interações coração-cérebro em pessoas saudáveis, mas também em pacientes. "Os novos resultados podem ajudar a explicar por que os pacientes após um AVC geralmente sofrem de problemas cardíacos e por que os pacientes com doença cardíaca geralmente apresentam função cognitiva prejudicada," explicou o professor Arno Villringer.

Checagem com artigo científico:

Artigo: Heart-brain interactions shape somatosensory perception and evoked potentials
Autores: Esra Al, Fivos Iliopoulos, Norman Forschack, Till Nierhaus, Martin Grund, Pawe? Motyka, Michael Gaebler, Vadim V. Nikulin, Arno Villringer
Publicação: Proceedings of the National Academy of Sciences
DOI: 10.1073/pnas.1915629117
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