
Lucidez terminal
Cuidar de crianças apresenta inúmeros desafios, mas ser cuidador de uma criança com doença terminal é tipicamente uma experiência que pode levar ao limite mesmo os profissionais mais experientes.
Karalee Kothe e colegas da Universidade do Colorado (EUA) decidiram prestar atenção justamente nos cuidadores, e decidiram avaliar as percepções desses cuidadores e os impactos emocionais que eles sofrem ao presenciarem episódios de lucidez terminal em crianças.
Existem inúmeros registros de várias experiências incomuns relatadas por pessoas em estado terminal e que ocorrem nos últimos dias, horas ou minutos da vida. A lucidez terminal é uma delas, caracterizando-se por um surto inesperado de clareza mental, que pode ser acompanhado por uma breve recuperação das capacidades cognitivas.
A lucidez terminal é considerada um enigma médico difícil de explicar, uma vez que aqueles que a experimentam registram frequentemente declínios fisiológicos irreversíveis. Além disso, ainda que a investigação sobre a lucidez terminal tenha aumentado substancialmente na última década, a maior parte dos estudos se concentrou em relatos registrados em populações adultas idosas.
Já existem casos de lucidez terminal em crianças documentados na literatura científica, mas a situação para os cuidadores é radicalmente diferente - um idoso em estado terminal parece algo muito natural, mas uma criança nas mesmas condições desafia nossa percepção sobre o fim da vida ao acontecer em uma idade tão precoce.
Foi então que surgiu a proposta da nova pesquisa, cujo objetivo era investigar o impacto que testemunhar a lucidez terminal em crianças pode ter nos cuidadores. Os pesquisadores avaliaram como os cuidadores percepcionam a lucidez terminal, como essa experiência influencia seus sistemas de crenças, como eles relatam o evento a outras pessoas e quais foram as reações a essas revelações.

Experiência espiritual transformadora
Os resultados revelaram que testemunhar a lucidez terminal em crianças foi considerado uma experiência espiritual transformadora, que influenciou os sistemas de crenças dos cuidadores, tornando-os pessoas mais espirituais.
Outro indício de que foi um evento marcante está no fato de que todos os cuidadores que participaram no estudo contaram o que tinham testemunhado a outras pessoas, tendo recebido uma mistura de respostas de aceitação e ceticismo.
Curiosamente, os colegas profissionais de saúde foram considerados os mais céticos em relação à lucidez terminal, exceto os que trabalharam de perto com a criança e passaram a sentir uma conexão com ela. Outros colegas dos cuidadores revelaram que se sentiram confortados e inspirados ao saber da lucidez terminal que o seu colega havia testemunhado.
De modo mais geral, os pesquisadores concluíram que há uma necessidade de uma maior educação sobre experiências de fim de vida para os profissionais de saúde, de modo a reduzir o estigma de revelar a lucidez terminal aos colegas e proporcionar a paz e o conforto necessários aos cuidadores de pacientes terminais.
"A lucidez terminal parece ser uma experiência profundamente comovente para os doentes terminais e uma experiência potencialmente transformadora para aqueles que a testemunham, disse a professora Natasha Tassell-Matamua. "Testemunhar a lucidez terminal em crianças pode iniciar uma transformação espiritual com implicações semelhantes ao crescimento pós-traumático ou às mudanças frequentemente observadas em quem teve uma Experiência de Quase Morte (EQM) ou recebeu formação em EQM."
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