24/09/2009

A tortura não funciona, dizem neurocientistas

Redação do Diário da Saúde

Tortura apaga as memórias que procura

De acordo com a revisão de uma série de pesquisas neurocientíficas, as técnicas coercitivas de interrogatório - um eufemismo para tortura - utilizadas durante a era Bush para extrair informações de suspeitos de terrorismo não apenas não funcionam como podem ter efeitos negativos sobre as funções cerebrais e a memória dos suspeitos.

Um novo artigo, publicado no jornal científico Trends in Cognitive Science, revisou evidências científicas demonstrando que o estresse e a ansiedade extremos e repetidos têm uma influência prejudicial sobre as funções cerebrais relacionadas à memória.

Ou seja, a tortura pode estar simplesmente apagando do cérebro dos suspeitos as informações que os torturadores estão tentando extrair.

Tortura não tem embasamento científico

Memorandos liberados pelo Departamento de Justiça em Abril de 2009, detalhando as técnicas de tortura, sugerem que períodos prolongados de choque, estresse, ansiedade, desorientação e falta de controle são mais eficazes do que as técnicas comuns de interrogatório para fazer com que os suspeitos revelem informações verdadeiras.

"Isto é baseado na suposição de que os suspeitos estarão motivados para revelar informações verídicas para encerrar o interrogatório e que os níveis extremos de estresse, choque e ansiedade não terão qualquer impacto sobre suas memórias," diz a professora Shane O'Mara, do Trinity College, na Irlanda. "Entretanto, este modelo de impacto do estresse extremo sobre a memória e o cérebro não têm absolutamente nenhum respaldo nas evidências científicas."

Não se pode acreditar nas informações reveladas sob tortura

Os estudos psicológicos sugerem que, durante extremos de estresse e ansiedade, o preso ficará condicionado a associar a revelação de informações com períodos de segurança. Para o interrogador, quando o preso fala, o objetivo de obter informações terá sido alcançado e haverá um alívio na desagradável tarefa de administrar essas condições de estresse ao outro.

Assim, é difícil ou mesmo impossível determinar durante o interrogatório se o preso está revelando informações verdadeiras ou apenas falando para escapar da tortura.

A pesquisa também revela que o estresse extremo tem um efeito deletério sobre o lobo frontal e é associado com a produção de falsas memórias.

Danificando a memória

Estudos neuroquímicos revelaram que o hipocampo e o córtex pré-frontal, regiões do cérebro essenciais para a memória, são ricos em receptores para hormônios que são ativados pelo estresse e pela falta de sono. E já se comprovou que esses hormônios têm efeitos danosos sobre a memória.

"Para resumir brevemente uma literatura vasta e complexa, o estresse extremo e prolongado inibe os processos biológicos que dão suporte à memória no cérebro," diz O'Mara. "Por exemplo, estudos de estresse extremo com soldados das forças especiais descobriram que as lembranças de informações aprendidas previamente foram prejudicadas depois da ocorrência do estresse."

O afogamento em particular é um estressante extremo que tem o potencial para provocar mudanças generalizadas no cérebro induzidas pela tensão.

Tortura nunca mais

"Dado o nosso conhecimento atual da neurobiologia cognitiva, é improvável que a tortura envolvendo estresses extremos vá facilitar a revelação de informações verdadeiras extraídas da memória de longo prazo," concluem os pesquisadores. "Ao contrário, essas técnicas causam tensões prolongadas e severas, que comprometem o tecido cerebral que dá suporte tanto à memória quanto à tomada de decisões."

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