04/10/2021

As pessoas só prestam atenção a novas informações quando querem

Redação do Diário da Saúde
As pessoas só prestam atenção a novas informações quando querem
Inúmeros estudos têm mostrado a tendência das mídias sociais para criar bolhas de informação.
[Imagem: Dimitar Nikolov]

Crenças motivadas

Nós temos a tendência de ouvir as pessoas que nos dizem coisas nas quais gostaríamos de acreditar, e ignorar as pessoas que nos dizem coisas que preferiríamos que não fossem verdade.

Embora seja razoável pensar que as pessoas tomem decisões racionalmente, baseando-se apenas em evidências e na sua experiência, várias pesquisas já demonstraram que, quando tomamos uma decisão, temos o que os psicólogos chamam de "crenças motivadas": Acreditamos em coisas em parte porque gostaríamos que elas fossem verdadeiras.

As crenças motivadas (e o raciocínio que leva a elas) podem gerar vieses sérios, o que inclui a proliferação da desinformação e das notícias falsas e até o desempenho do mercado de ações: Há uma quantidade enorme de informações objetivas disponíveis sobre os mercados financeiros, mas a tomada de decisões e a ação grupal podem resultar em bolhas financeiras, instabilidade e, finalmente, crises que podem atingir o mundo inteiro.

"Nós certamente sabemos mais"

Para tentar entender melhor todas essas situações e comportamentos, Ryan Oprea e Sevgi Yuksel, da Universidade da Califórnia de Santa Bárbara (EUA) bolaram vários experimentos de laboratório com o objetivo de esclarecer se esses preconceitos e vieses nas crenças são um fenômeno tipicamente individual ou se eles se tornam mais graves quando as pessoas compartilham suas crenças umas com as outras, como acontece nos mercados financeiros e nos fóruns de discussão das redes sociais.

Os pesquisadores juntaram voluntários com base em sua pontuação em um teste de QI, de modo que os dois membros de cada dupla tinham pontuações ou acima ou abaixo da mediana. Os voluntários então trocaram ideias a respeito de uma proposição que ambos queriam acreditar que era verdadeira: Que eles estavam no grupo de QI alto.

O experimento revelou que as pessoas que estavam pessimistas em pertencer ao grupo de QI mais alto tenderam a se tornar significativamente mais otimistas quando comparadas ao seu colega mais otimista.

Uma pessoa otimista, entretanto, não se mostrou inclinada a mudar suas crenças mesmo quando fazendo dupla com outra pessoa mais pessimista.

O efeito foi particularmente forte para pessoas que estavam no grupo de QI baixo, produzindo tendências particularmente severas entre aqueles que pareciam querer fortemente pertencer ao grupo de QI mais alto.

No geral, os resultados indicam que a amplificação do viés ocorre porque as pessoas atribuem maior valor informativo aos sinais sociais que reforçam sua motivação pré-existente para acreditar.

Aceitar informações confiáveis e imparciais

Em outra rodada, os pesquisadores deram aos participantes, na metade do experimento, uma informação imparcial sobre em que grupo de QI cada um estava.

Isso foi altamente eficaz para remover os preconceitos causados pela troca inicial de crenças. Os resultados, portanto, sugerem que fornecer fontes de informação confiáveis e imparciais pode reduzir as crenças motivadas em ambientes como câmaras de eco, bolhas de informação e mesmo mercados financeiros.

"Este experimento confirma muitas suspeitas populares sobre por que as crenças tendenciosas podem estar piorando na era da internet," disse Ryan Oprea. "Nós agora recebemos um bocado de informações das mídias sociais e não sabemos muito sobre a qualidade das informações que obtemos. Como resultado, muitas vezes somos forçados a decidir por nós mesmos quão precisas as várias opiniões e fontes de informação são e quanto valor dar a cada uma delas. Nossos resultados sugerem que as pessoas resolvem esse dilema atribuindo credibilidade a fontes que estão nos dizendo o que gostaríamos de ouvir e isso pode tornar os preconceitos devido ao raciocínio motivado muito piores com o tempo."

Checagem com artigo científico:

Artigo: Social Exchange of Motivated Beliefs
Autores: Ryan Oprea, Sevgi Yuksel
Publicação: Journal of the European Economic Association
DOI: 10.1093/jeea/jvab035
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