
Longevidade no Brasil
Os cientistas estão se dando conta de que o Brasil pode ser um dos locais mais importantes no mundo para o estudo da longevidade extrema.
Nossa população altamente diversa abriga milhões de variantes genéticas ausentes em conjuntos de dados mais comumente usados nas pesquisas científicas desse tipo, incluindo alterações raras ligadas à força imunológica e à manutenção celular. Os supercentenários brasileiros frequentemente mantêm a mente lúcida, sobrevivem a infecções graves e vêm de famílias onde vários membros vivem mais de 100 anos. Juntos, eles revelam o envelhecimento não como um declínio inevitável, mas como uma forma de resiliência biológica.
Mateus de Castro e colegas da USP (Universidade de São Paulo) combinaram conhecimentos adquiridos em seu estudo nacional de longa duração sobre indivíduos excepcionalmente longevos com descobertas recentes na biologia dos supercentenários, o que está ajudando a explicar por que o Brasil oferece oportunidades científicas únicas.
Uma das principais questões não respondidas sobre a longevidade está em por que um pequeno número de pessoas vive mais de 110 anos, enquanto a maioria nunca chega aos 100? Segundo a equipe brasileira, parte do problema reside no foco restrito das pesquisas existentes: Muitos grandes bancos de dados genômicos são dominados por populações relativamente homogêneas, deixando grandes lacunas quando se trata de grupos miscigenados, como a população brasileira.
"Esse hiato é especialmente limitante na pesquisa sobre longevidade, onde supercentenários miscigenados podem abrigar variantes protetoras únicas, invisíveis em populações geneticamente mais homogêneas," explicou Mateus.

Supercentenários brasileiros
O papel do Brasil na pesquisa sobre longevidade é ainda mais reforçado pelas estatísticas globais. Três dos dez supercentenários do sexo masculino com maior longevidade comprovada são brasileiros, incluindo o homem mais velho ainda vivo, nascido em 5 de outubro de 1912. Isso é especialmente notável porque a longevidade extrema é muito menos comum em homens, que normalmente enfrentam maior risco cardiovascular, mais doenças crônicas e padrões de envelhecimento hormonal e imunológico diferentes.
Entre as mulheres, as supercentenárias brasileiras também se destacam. O número de brasileiras entre as 15 pessoas mais longevas do mundo supera o de países mais populosos e ricos, incluindo os Estados Unidos.
O que torna esses superidosos brasileiros especialmente importantes não é apenas a idade: Quando os pesquisadores entraram em contato com eles pela primeira vez, vários supercentenários brasileiros ainda estavam mentalmente lúcidos e capazes de realizar tarefas básicas do dia a dia por conta própria. Muitos passaram a maior parte de suas vidas em áreas carentes, com pouco acesso a serviços modernos de saúde. Isso permite que os cientistas estudem a resiliência biológica que se desenvolveu em grande parte sem intervenção médica.
E a genética pode ajudar nessas pesquisas: Pesquisas genômicas prévias, envolvendo mais de 1.000 brasileiros com mais de 60 anos, revelaram cerca de 2 milhões de variantes genéticas até então desconhecidas. Somente entre os idosos brasileiros, os pesquisadores identificaram mais de 2.000 inserções de elementos móveis e mais de 140 alelos HLA ausentes em bancos de dados genômicos globais. Um estudo posterior ampliou ainda mais esse panorama, relatando mais de 8 milhões de variantes genéticas não descritas na população brasileira, incluindo mais de 36.000 consideradas potencialmente prejudiciais.

Aprendendo com os supercentenários
A equipe da USP construiu uma coorte rara e valiosa. Seu estudo longitudinal, ainda em andamento, inclui mais de 160 centenários, entre eles 20 supercentenários validados, provenientes de diversas regiões do Brasil com diferentes contextos sociais, culturais e ambientais. Entre os participantes estava a Irmã Inah, reconhecida como a pessoa mais velha do mundo até sua morte em 30 de abril de 2025, aos 116 anos.
Uma família em especial fornece um exemplo impressionante de longevidade hereditária. Uma mulher de 110 anos da coorte tem sobrinhas de 100, 104 e 106 anos, tornando-a uma das famílias mais longevas já documentadas no Brasil. A sobrinha mais velha, agora com 106 anos, ainda competia como campeã de natação aos 100 anos.
Esse padrão coincide com descobertas anteriores que mostram que os irmãos de centenários têm entre 5 e 17 vezes mais probabilidade de também atingirem a idade avançada.
Será que famílias como essa podem ajudar a separar as influências genéticas das ambientais ou epigenéticas que podem nos orientar sobre como viver mais? "Investigar esses raros agrupamentos familiares oferece uma perspectiva singular sobre a herança poligênica da resiliência e pode ajudar a desvendar as contribuições genéticas e epigenéticas para a longevidade extrema," disse Mateus.
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