03/04/2019

Bactérias do intestino podem prever câncer colorretal

Com informações da Agência Fapesp
Bactérias do intestino podem prever câncer colorretal
A descoberta de que o microbioma intestinal regula processos cerebrais abriu caminho para a elucidação de conexões entre as bactérias intestinais e a doença de Parkinson, bem como com sua influência decisiva no Mal de Alzheimer.
[Imagem: Nair/Abt/Artis/UPenn]

Microbioma intestinal

O microbioma, conjunto de microrganismos presentes no intestino, pode ser usado para prever a ocorrência do câncer colorretal - o segundo tipo de tumor mais frequente em mulheres e o terceiro entre os homens.

Uma equipe internacional de pesquisadores, incluindo brasileiros, identificou padrões no microbioma intestinal - que independem da cultura alimentar - e detectou associação entre alterações nesse padrão e a ocorrência de câncer colorretal.

A descoberta abre caminho para o desenvolvimento de exames não invasivos capazes de prever a ocorrência da doença.

Os pesquisadores analisaram dados sobre a composição e a abundância de todas as bactérias encontradas nas 969 amostras de pacientes com câncer colorretal. Para obter um método de análise mais simples, que possa ser usado amplamente em clínicas e hospitais, os pesquisadores conseguiram selecionar as bactérias com maior peso na análise.

"Com 16 espécies, obtivemos resultados comparáveis às análises feitas com todas as espécies. É um passo, portanto, na direção de se ter uma ferramenta diagnóstica simples, sem precisar sequenciar toda a microbiota e sem deixar de ter a precisão necessária", disse Andrew Maltez Thomas, da USP.

Bactérias que migram

Os pesquisadores combinaram análise de metagenômica, bioinformática e aprendizagem de máquina (com uso de inteligência artificial) para correlacionar a ocorrência do câncer colorretal com dados do microbioma de 969 pessoas da Alemanha, França, Itália, China, Japão, Canadá e Estados Unidos. Trata-se de um dos maiores e mais variados estudos sobre o tema.

Os resultados não só estabelecem conjuntos de microrganismos associados ao câncer colorretal em todas as populações estudadas, mas também indicam assinaturas no metabolismo microbiano (padrão de metabólitos produzidos pelos microrganismos) que também têm poder de prever a ocorrência da doença.

A análise rendeu ainda outras duas descobertas importantes. Uma delas se refere à maior prevalência de bactérias comumente encontradas na boca, como a Fusobacterium nucleatum, e nas vias aéreas no intestino de pacientes com câncer colorretal. A outra descoberta indica a associação entre a doença e a presença de uma enzima microbiana que degrada a colina, um nutriente que faz parte do complexo B de vitaminas.

"Há um aporte maior de espécies orais indo para o intestino em pacientes com câncer colorretal. Talvez essa migração cause inflamações no intestino, originando o tumor. No entanto, não sabemos ainda o real motivo de elas se transportarem para o intestino. Sabemos apenas que há uma associação entre a sua presença no intestino e o câncer colorretal. É algo que ainda precisa ser melhor entendido", disse Thomas.


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