21/08/2019

Superbactérias já circulam fora dos hospitais no Brasil

Com informações da Agência Fapesp
Bactérias multirresistentes já circulam fora dos hospitais no Brasil
Análise do perfil genético dos microrganismos isolados de pessoas com infecção urinária revelou alto grau de resistência e virulência, incluindo a presença da superbactéria KPC.
[Imagem: André Pitondo Silva]

Superbactérias à solta

Bactérias da espécie Klebsiella pneumoniae estão entre os microrganismos que mais causam infecções hospitalares e também entre os que mais têm desenvolvido resistência a antibióticos nos últimos anos.

Pertence ao grupo, por exemplo, a KPC (Klebsiella pneumoniae carbapenemase), que ganhou a alcunha de superbactéria por produzir uma enzima capaz de inativar os fármacos mais potentes disponíveis para o tratamento de infecções graves.

Pesquisadores demonstraram agora que esses patógenos multirresistentes - inclusive as produtoras de KPC - já não são um problema restrito ao ambiente hospitalar no Brasil.

Ao analisar espécimes de K. pneumoniae isolados da urina de 48 pessoas diagnosticadas com infecção urinária na região de Ribeirão Preto (SP), mas não hospitalizadas, a equipe constatou que 29 amostras (60,4%) continham bactérias não suscetíveis a três ou mais classes de antibióticos e, portanto, consideradas multirresistentes (MDR).

Em 30 amostras (62,5%), foram identificados 73 diferentes genes de virulência - codificadores de proteínas que ajudam o microrganismo a driblar o sistema imune ou a se disseminar mais facilmente no ambiente.

"Ficamos surpresos ao encontrar bactérias com tanta multirresistência e virulência em pessoas que não estavam hospitalizadas. Algumas das bactérias analisadas tinham perfil genético caraterístico de cepas causadoras de infecção hospitalar," comentou o professor André Pitondo da Silva, da Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp) e coautor da pesquisa, publicada no Journal of Global Antimicrobial Resistance.

Bactérias oportunistas

A K. pneumoniae é considerada uma bactéria oportunista, ou seja, pode integrar a microbiota de um indivíduo durante anos, sem causar problemas. Porém, quando há queda na imunidade - em decorrência de uma doença, de um tratamento ou do envelhecimento - o microrganismo pode se manifestar de diversas formas - infecções pulmonares, urinárias, feridas (cirúrgicas ou escaras) e até mesmo sepse (infecção generalizada).

"No caso de pacientes com infecção urinária recorrente, o risco é o quadro evoluir para pielonefrite [doença inflamatória infecciosa que afeta os rins], podendo causar comprometimento renal e até mesmo sepse. Portanto, quando esses pacientes retornam ao hospital, podem disseminar no local os microrganismos multirresistentes", disse o pesquisador.

A principal forma de contaminação é o contato com fluidos do paciente infectado, que pode ocorrer por meio de sondas e cateteres, por exemplo. "Quando bactérias MDR são identificadas em hospitais, principalmente as produtoras de KPC, são adotados protocolos rigorosos para evitar a disseminação, podendo até mesmo limitar a visitação ao paciente," disse André.

Conhecer as características moleculares das bactérias encontradas nos hospitais de diferentes regiões do Brasil e do mundo, incluindo as técnicas usadas neste estudo, ajuda a entender como os genes de resistência e virulência estão se disseminando e como a espécie está evoluindo, informação essencial para o controle de infecções e o tratamento correto dos pacientes.

"É muito importante investigar a quais antibióticos a bactéria é suscetível, pois administrar o medicamento errado pode até piorar o quadro clínico do paciente, selecionando as cepas mais resistentes," finalizou André.


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