Células-tronco recuperam área cerebral danificada por AVC

Células-tronco recuperam área cerebral danificada por AVC
Biomaterial manteve vivas células mesenquimais e diminuiu consideravelmente o tamanho da lesão provocada por isquemia.
[Imagem: Laura N.Zamproni et al. - 10.1016/j.nano.2018.08.014]

Células-tronco contra AVC

Apesar de anúncios promissores - e até promessas irrealistas - no início deste século, as pesquisas com células-tronco não vêm gerando os avanços que a princípio se esperava.

Além de problemas éticos nas pesquisas e na oferta precoce de tratamentos, alguns problemas com transplantes de células-tronco arrefeceram o entusiasmo inicial.

Mas os trabalhos continuam, e agora pesquisadores brasileiros conseguiram diminuir lesões provocadas por isquemia no cérebro de camundongos usando células-tronco.

Extraídas da medula óssea dos animais, as células-tronco mesenquimais - que originam tecidos - estavam em um suporte feito de um material que não só permitiu a sobrevivência e a multiplicação delas, como impediu que migrassem para outras regiões do cérebro, como é comum ocorrer quando implantadas diretamente na lesão.

A técnica pode ajudar na recuperação de vítimas de acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico, quando uma veia do cérebro é bloqueada (trombo) e a parte do cérebro que deixa de ser irrigada tem morte de neurônios. A isquemia pode causar sequelas graves, como perda de movimentos, e mesmo levar à morte.

Suporte para células-tronco

Não é a primeira vez que cientistas tentam usar células-tronco para recuperar uma área danificada do cérebro de camundongos ou ratos. Nos ensaios anteriores, porém, quando implantadas diretamente na lesão, quase nenhuma célula sobreviveu (0,005%). As que sobreviveram migraram para outras regiões do cérebro. Quando injetadas na corrente sanguínea, ficaram retidas nos rins ou nos pulmões das cobaias.

Uma equipe da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e da Universidade Brasil obtiveram um avanço colocando previamente as células-tronco em um material que, além de ser biocompatível (não tóxico), aumenta a sobrevivência das células e faz com que elas permaneçam na área da lesão, diminuindo a inflamação. Depois de alguns meses, com a área em grande parte recuperada, o material é totalmente absorvido pelo corpo.

Células-tronco recuperam área cerebral danificada por AVC
Várias equipes ao redor do mundo vêm tentando criar um "berço" para as células-tronco, onde elas possam se desenvolver com segurança.
[Imagem: Viswanathan et al./JACS]

O material é uma fibra feita de um polímero orgânico, o ácido polilático, que se forma quando colocada em um equipamento que aquece o material e gira em alta velocidade, como uma máquina de algodão-doce. O "algodão" que se forma tem fibras altamente porosas, onde são depositadas as células-tronco mesenquimais retiradas da medula óssea.

"Quando esse material contendo as células-tronco mesenquimais foi implantado em um cérebro lesionado, a lesão ficou com um terço do tamanho que ficaria se não houvesse intervenção," disse Marimélia Porcionatto, professora da Unifesp e coordenadora do estudo.

Citocinas e integrinas

Testes mostraram que as células-tronco produzem mais uma citocina chamada CXCL12, que atrai as células para a região. Além disso, produzem mais proteínas chamadas integrinas, que fazem as células-tronco aderirem à área em que estão.

"É como se a célula-tronco mesenquimal estivesse produzindo um ambiente apropriado para ficar. Ainda não sabemos o que nesse material causa isso, mas é muito interessante ver como um material não biológico interfere no comportamento da célula", disse Marimélia.

Os pesquisadores agora pretendem testar a técnica com células-tronco em traumatismo crânio-encefálico, em que há perda de parte do cérebro.

Não há previsão de quando essas terapias experimentais poderão ser testadas em humanos, sobretudo pelo risco de que as células-tronco implantadas acabem causando câncer.


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