10/03/2026

Composto antienvelhecimento popular também pode alimentar o câncer

Redação do Diário da Saúde
Composto antienvelhecimento popular também pode alimentar o câncer
Embora as poliaminas tenham efeitos antienvelhecimento benéficos em células saudáveis, elas podem levar à regulação positiva da eIF5A2. Essa proteína, diferentemente de sua contraparte eIF5A1, facilita o crescimento de células cancerígenas.
[Imagem: Masato Suzuki et al. - 10.1016/j.jbc.2025.110453]

Lado sombrio da "molécula da longevidade"

Pesquisadores descobriram que as poliaminas, moléculas conhecidas por promover a longevidade e a reciclagem celular, possuem um mecanismo de "duas caras" que acelera o crescimento de tumores, tornando o câncer mais violento.

Masato Suzuki e colegas da Universidade de Ciências de Tóquio (Japão) descobriram que, enquanto em células saudáveis essas moléculas ativam processos de manutenção, em células cancerosas elas desviam o metabolismo para a produção rápida de energia - e células do câncer precisam de muita energia para crescer e se espalhar.

As poliaminas, como a espermidina, são essenciais para o crescimento celular e têm sido amplamente estudadas por seus efeitos antienvelhecimento, principalmente por estimularem a autofagia (limpeza de resíduos celulares) por meio da proteína eIF5A1.

No entanto, os cientistas começaram a observar uma contradição: Altos níveis dessas mesmas moléculas são frequentemente encontrados em tumores agressivos. O problema central era entender como uma substância que teoricamente protege o organismo pode, simultaneamente, alimentar o metabolismo acelerado do câncer, que prioriza a glicólise aeróbica (geração rápida de energia), em vez da respiração mitocondrial saudável.

Como as poliaminas impulsionam o câncer

Através de análises proteômicas de alta resolução, os cientistas compararam a ação das poliaminas em proteínas quase idênticas, mas com funções opostas: A eIF5A1, presente em tecidos normais, e a eIF5A2, associada ao câncer.

A investigação revelou que, em células malignas, as poliaminas desativam um "freio" natural (o microRNA miR-6514-5p) que normalmente restringe a produção da proteína eIF5A2. Sem esse controle, a eIF5A2 é produzida em excesso e passa a comandar os ribossomos para sintetizar proteínas específicas que promovem a proliferação tumoral e a glicólise intensa.

Diferente da eIF5A1, que foca na saúde das mitocôndrias, a eIF5A2 altera a expressão gênica para sustentar a agressividade do tumor. Esta distinção explica por que moléculas tão semelhantes produzem resultados biológicos tão distintos dependendo do contexto celular.

O que ajuda e o que atrapalha

Esta descoberta tem implicações diretas em duas frentes.

A primeira é no desenvolvimento de novas terapias contra o câncer, focando na interação entre a proteína eIF5A2 e os ribossomos. Medicamentos que bloqueiem especificamente a eIF5A2 poderão interromper o crescimento do câncer sem anular os benefícios da eIF5A1 nos tecidos saudáveis.

A segunda estratégia é oposta, acendendo um alerta sobre o uso de suplementos de poliaminas, hoje tomados como protetores para o envelhecimento. Embora possam trazer benefícios para a longevidade em indivíduos saudáveis, essas substâncias podem ser contraproducentes ou perigosas em pacientes com tumores diagnosticados ou em risco de malignidade, devido à sua capacidade de alimentar o metabolismo cancerígeno.

Checagem com artigo científico:

Artigo: Polyamines stimulate the protein synthesis of the translation initiation factor eIF5A2, participating in mRNA decoding, distinct from eIF5A1
Autores: Masato Suzuki, Takehiro Suzuki, Yoshio Nakano, Ken Matsumoto, Hitomi Manaka, Masahiro Komeno, Shoma Tamori, Akira Sato, Naoshi Dohmae, Kazunori Akimoto, Satoru Miyazaki, Takashi Suda, Toshihiko Toida, Keiko Kashiwagi, Kazuei Igarashi, Kyohei Higashi
Publicação: Journal of Biological Chemistry
Vol.: 301, Issue 8110453
DOI: 10.1016/j.jbc.2025.110453
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