02/02/2026

Vivendo em metáforas: Delírios são expressões de emoções profundas

Redação do Diário da Saúde
Vivendo em metáforas: Delírios são expressões de emoções profundas
Um delírio pode ser identificado com apenas duas perguntas - mas interpretar seu sentido é bem mais complicado.
[Imagem: Jürgen Ihle/Pixabay]

Vivências, não falhas

Pesquisadores estão propondo uma perspectiva radicalmente diferente da usada hoje sobre os delírios na psicose, sugerindo que essas experiências não são falhas cognitivas, mas sim a vivência de emoções profundas e suas consequentes sensações corporais.

Rosa Ritunnano e colegas da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, afirmam que pessoas em episódios psicóticos podem estar literalmente "habitando metáforas para dar sentido a sentimentos avassaladores".

Tradicionalmente, os delírios são descritos tanto na prática clínica quanto na cultura popular como crenças falsas, fixas e frequentemente incompreensíveis, resultantes de "falhas" no processamento cerebral.

Para os indivíduos afetados, que costumam ter o primeiro episódio entre os 16 e 30 anos, essa visão pode gerar sentimentos de marginalização e vergonha, dificultando a recuperação. E, em termos mais técnicos, essa abordagem frequentemente ignora o significado subjetivo da experiência, deixando pouco espaço para que o paciente discuta o que seus delírios representam.

Elementos do delírio

Ao analisar narrativas de jovens em tratamento, a equipe verificou que os delírios emergem de um "tecido" emocional e linguístico complexo. A descoberta central é que o conteúdo delirante reflete padrões do corpo reagindo a emoções intensas ou a traumas prévios, especialmente o sentimento de vergonha.

Os pesquisadores destacam três elementos centrais para o delírio:

  • Corporificação do trauma: Experiências negativas repetidas, como o bullying, podem gerar uma sensação física de estar sendo observado. Isso evolui para delírios de perseguição ou a crença de que os pensamentos estão sendo transmitidos publicamente, eliminando qualquer senso de privacidade.
  • A linguagem como ponte: O estudo destaca o uso de linguagem figurada e metonímica. Por exemplo, a sensação física de sentir-se "exposto" ou "sujo" pode se transformar na crença de estar sendo filmado por câmeras ou estar contaminado por parasitas.
  • Estados emocionais: Nem todos os delírios são negativos. Alguns participantes relataram sentimentos de euforia e conexão espiritual tão intensos que o corpo os interpreta como a capacidade física de voar ou de tocar o céu.

No geral, defendem os pesquisadores, o delírio funciona como uma tentativa da pessoa - consciente ou inconscientemente - em restaurar o significado e o equilíbrio emocional quando a vida se torna insuportável. E isso é feito utilizando a linguagem cotidiana para descrever estados físicos e emocionais extremos, que podem parecer sem sentido para quem os vê de fora, o que inclui os terapeutas.

Metáforas vividas

Uma visão dos delírios como "metáforas vividas" pode permitir o desenvolvimento de abordagens clínicas mais compassivas e eficazes. Em vez de focar apenas na correção da "irracionalidade", os profissionais de saúde podem utilizar as metáforas e narrativas dos pacientes como chaves para entender seu sofrimento.

Essa mudança de paradigma abre caminho para terapias que priorizem o mundo emocional e corporal do indivíduo, reduzindo o estigma e integrando a experiência delirante ao processo de cura e recuperação da identidade.

Checagem com artigo científico:

Artigo: Delusion as embodied emotion: a qualitatively driven, multimethod study of first-episode psychosis in the UK
Autores: Rosa Ritunnano, Jeannette Littlemore, Barnaby Nelson, Clara S. Humpston, Matthew R. Broome
Publicação: The Lancet Psychiatry
DOI: 10.1016/S2215-0366(25)00341-4
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