Dengue: Não é o vírus mais agressivo que espalha a doença

Dengue: Não é o vírus mais agressivo que causa a doença
Para uma linhagem do vírus se sobressair a outra, ela ativa menos a resposta do sistema imunológico dos doentes - a linhagem prevalece mesmo se multiplicando menos.
[Imagem: PLOS Neglected Tropical Diseases]

Atacando menos para sobreviver

Uma linhagem do vírus da dengue 1 encontrada no Brasil consegue prevalecer sobre outra, apesar de se multiplicar menos nos mosquitos portadores do vírus e nas células humanas infectadas.

Esse fato contraria o conhecimento científico tradicional sobre a prevalência de uma linhagem de vírus sobre outra, um fenômeno chamado substituição de clado - grupo de organismos originados de um único ancestral comum.

Isso é possível porque linhagem ativa menos a resposta do sistema imunológico dos doentes. Sendo menos combatido, o vírus consegue se multiplicar mais no corpo humano, aumentando as chances de a pessoa ser picada por um mosquito e contagiar outras. Assim, essa linhagem consegue superar outra na população, com capacidade muito maior de se multiplicar em mosquitos e em pacientes.

"Havia três práticas para investigar as situações de multiplicação do vírus da dengue e explicar por que uma linhagem superava outra. Nossa pesquisa trouxe à tona um novo fenômeno que explica como um vírus sobrevive em uma população," disse o professor Maurício Lacerda Nogueira, da Faculdade de Medicina de São José do Preto (SP) e um dos autores de artigo publicado na PLOS Neglected Tropical Diseases.

Os pesquisadores estudaram as linhagens 1 e 6 (L1 e L6) do vírus da dengue de tipo 1. O estudo mostrou que, apesar de a L1 ter maior capacidade de multiplicação no mosquito e nas células, a L6 consegue minimizar e até desativar as respostas imunológicas do corpo humano, fazendo com que essa linhagem ocupe o local da L1.

Vírus melhor adaptado

Esta descoberta traz novos conhecimentos fundamentais para a produção de vacinas no combate à doença. "Compreender, de forma global, como o vírus interage com a população nos ajuda a entender como as vacinas funcionam e é fundamental para podermos desenhá-las," disse Maurício.

Como resultado do novo mecanismo descoberto, a quantidade de vírus da linhagem 6 no ser humano é, em média, 10 vezes maior do que a da 1. O vírus da linhagem 1 se multiplica também muito mais no mosquito e tem replicação local muito maior ao infectar a pessoa.

Só que essa replicação induz uma ativação forte de linfócitos B e T, levando ao aumento de citocinas, ou seja, gera uma forte resposta imune, capaz de inibir a replicação sistêmica do vírus no corpo. Com isso, a carga viral é menor, diminuindo a disseminação para mosquitos, ou seja, menos gente será infectada por ele.

"Com isso, há uma replicação sistêmica na pessoa muito maior, ou seja, uma quantidade de vírus maior na população, o que é capaz de infectar mais mosquitos. Concluímos então que L6 tem um melhor fitness epidemiológico do que o L1, que, por sua vez, tem melhor fitness viral do que L6", disse Maurício.


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