05/10/2021

Dopamina não é hormônio do bem-estar, é hormônio de eventos importantes

Redação do Diário da Saúde
Dopamina não é hormônio do bem-estar, é hormônio de eventos importantes
É mais uma pesquisa reforçando a noção de que o neurotransmissor dopamina tem personalidade dupla, agindo no prazer e na dor, o que alguns cientistas chamam de o "lado vilão do hormônio da felicidade".
[Imagem: Christine Liu]

Dopamina para o prazer e para a dor

Os níveis de dopamina também aumentam em resposta a estímulos negativos e estressantes, e não apenas em resposta a estímulos prazerosos.

Além de refazer o discurso presente na comunidade científica e na mídia sobre o "hormônio do bem-estar", esta descoberta é motivo suficiente para repensar o tratamento para várias doenças psiquiátricas e para dependência de substâncias, afirmam Munir Kutlu e seus colegas da Universidade Vanderbilt (EUA).

"Este trabalho demonstra claramente um papel muito mais sofisticado para este neurotransmissor do que foi atribuído anteriormente, e isso significa que precisamos repensar os modelos de vício que dependem dos circuitos de recompensa dopamina/drogas," acrescentou o professor Danny Winder.

O modelo aceito atualmente pela comunidade científica, chamado de Teoria do Erro de Previsão de Recompensa (RPE), é baseado na ideia de que a dopamina sinaliza previsões sobre quando as recompensas ocorrerão. Essa teoria sugere que a dopamina é um rastreador de todos os erros que cometemos quando tentamos obter recompensas.

Este novo trabalho mostra que essa teoria só é precisa em um subconjunto de cenários de aprendizagem, provando que, embora as recompensas aumentem a dopamina, o mesmo ocorre com os estímulos estressantes.

"Nós então fomos adiante e mostramos que a dopamina não é uma molécula de recompensa. Em vez disso, ela ajuda a codificar informações sobre todos os tipos de eventos importantes e relevantes e fomenta o comportamento adaptativo - independentemente de esse comportamento ser positivo ou negativo," disse a pesquisadora Erin Calipari, membro da equipe.

Tratamentos falhos

Estes resultados são significativos porque reescrevem praticamente tudo o que se falava sobre a dopamina, incluindo o que ela codifica no cérebro e como dirige o comportamento humano.

Isso tem uma importância crucial quando se leva em conta que a dopamina fica desregulada na doença de Parkinson e em quase todas as doenças psiquiátricas, incluindo dependência, ansiedade e depressão, esquizofrenia e outras.

Entender o que esses défices de dopamina significam será fundamental para entender os sintomas dos pacientes e desenvolver melhores tratamentos baseados em evidências para essas doenças.

"A maior parte da nossa compreensão da neurobiologia da dependência gira em torno da dopamina e da rede dopaminérgica, já que muitas abordagens terapêuticas que visam tratar a dependência têm a dopamina como alvo. No entanto, alterar a dopamina sem ter um entendimento completo do que esse neurotransmissor realmente faz pode levar a muitos efeitos colaterais imprevistos, e, mais importante, a estratégias de tratamento falhas. Este novo conhecimento sobre o que a dopamina realmente faz afetará muitos campos fora da neurociência e terá um forte impacto nas vidas humanas e nos resultados de saúde," disse Calipari.

Checagem com artigo científico:

Artigo: Dopamine release in the nucleus accumbens core signals perceived saliency
Autores: Munir Gunes Kutlu, Jennifer E. Zachry, Patrick R. Melugin, Stephanie A. Cajigas, Maxime F. Chevee, Shannon J. Kelley, Banu Kutlu, Lin Tian, Cody A. Siciliano, Erin S. Calipari
Publicação: Current Biology
DOI: 10.1016/j.cub.2021.08.052
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