04/03/2026

Faísca oxidativa é crucial para reparação do cérebro

Redação do Diário da Saúde
Células morrendo em uma área lesionada do cérebro aparecem em cor-de-rosa, enquanto células gliais ativadas, que produzem proteínas antioxidantes protetoras, aparecem em verde.
[Imagem: Carolina Alves]

Equilíbrio, sempre o equilíbrio

O estresse oxidativo é uma consequência direta do excesso dos chamados radicais livres, moléculas reativas e instáveis que contêm oxigênio.

Os radicais livres são subprodutos metabólicos normais, essenciais, eliminando as células velhas e doentes, além de também ajudarem a transmitir sinais no corpo. É o seu excesso que define o estresse oxidativo, o que pode ser causado por fatores de estilo de vida, ambientais e biológicos, como tabagismo, alto consumo de álcool, má alimentação, estresse, poluição, radiação, químicos industriais e inflamação crônica.

Quando isso ocorre, cria-se um desequilíbrio entre a produção de radicais livres e as defesas antioxidantes do corpo, responsáveis pela sua neutralização. Ou seja, em condições normais, precisamos tanto dos radicais livres quanto dos antioxidantes, já que um controla o outro.

Quando ouvimos falar de "estresse oxidativo" no cérebro, quase sempre interpretamos isso como uma má notícia, associada ao envelhecimento, à doença de Alzheimer e a outras doenças neurodegenerativas. Mas também aqui há movimentos benéficos, com o segredo estando no equilíbrio.

Um novo estudo experimental, realizado por uma equipe da Fundação Champalimaud (Portugal), mostrou agora que um breve e bem controlado pulso de estresse oxidativo, logo após uma lesão, pode na verdade ajudar o cérebro a se reparar.

Faísca oxidativa

Os experimentos mostraram que, após uma pequena lesão no cérebro - os experimentos foram feitos em animais - um grupo específico de células de suporte cerebral, conhecidas como glia, libera rapidamente um pulso de formas quimicamente reativas de oxigênio, que incluem o peróxido de hidrogênio (contido na água oxigenada).

Essa "faísca oxidativa" controlada faz duas coisas ao mesmo tempo: Ativa processos antioxidantes protetores na glia e, o que é crucial, age como um sinal de ativação de células que normalmente estão inativas, levando-as a se dividir e a substituir o tecido perdido.

Os cientistas identificaram também a responsável por este pulso de radicais livres: Uma enzima chamada Duox, presente na membrana das células gliais, que produz peróxido de hidrogênio fora das células. "Isso foi surpreendente, pois inicialmente pensávamos que as mitocôndrias - as minúsculas baterias das células - seriam as principais geradoras de estresse oxidativo no cérebro lesionado," explicou a pesquisadora Carolina Alves.

Quando a atividade da Duox foi reduzida geneticamente, ou quando a quantidade de oxigênio reativo foi atenuada com tratamentos antioxidantes, o cérebro lesionado produziu menos células novas e a resposta regenerativa foi substancialmente menor. Em contrapartida, estimular a glia para aumentar a atividade da Duox foi suficiente para desencadear divisões celulares adicionais, mesmo na ausência de lesão.

Novas estratégias

Isto significa que, em particular, o peróxido de hidrogênio derivado da glia é um poderoso motor de plasticidade cerebral.

Estes resultados desafiam a ideia simplista de que o estresse oxidativo no cérebro é sempre prejudicial, e podem ajudar a explicar por que as terapias antioxidantes de amplo espectro não conseguem, em grande parte, melhorar a recuperação cerebral nos doentes após uma lesão - elas acabam inibindo os radicais livres em um momento em que eles são essenciais.

A expectativa agora é que estas descobertas levem ao desenvolvimento de estratégias mais direcionadas, que atenuem o estresse oxidativo crônico prejudicial preservando - ou mesmo aproveitando - esses sinais oxidativos de curta duração, abrindo novos caminhos para promover a reparação cerebral.

Checagem com artigo científico:

Artigo: Duox-driven ROS release by glia promotes regeneration in the adult Drosophila brain
Autores: Carolina S. Alves, Anabel R. Simões, Beatriz Gil Ferreira, Marta Neto, Carmo C. Soares, Andreia Augusto, Christa Rhiner
Publicação: Embo Reports
DOI: 10.1038/s44319-026-00703-w
Siga o Diário da Saúde no Google News

Ver mais notícias sobre os temas:

Cérebro

Neurociências

Alimentação e Nutrição

Ver todos os temas >>   

A informação disponível neste site é estritamente jornalística, não substituindo o parecer médico profissional. Sempre consulte o seu médico sobre qualquer assunto relativo à sua saúde e aos seus tratamentos e medicamentos.
Copyright 2006-2026 www.diariodasaude.com.br. Todos os direitos reservados para os respectivos detentores das marcas. Reprodução proibida.