24/06/2020

Fortes convicções cegam para informações que contestam crenças pessoais

Redação do Diário da Saúde
Fortes convicções cegam para informações que contestam crenças pessoais
Um estudo correlato mostrou que pessoas do tipo sabe-tudo sabem menos do que acreditam.
[Imagem: Ilma Bilic/Umich]

Quando a razão perde para a emoção

Vivendo em uma civilização que se desenvolveu valorizando o racionalismo e a lógica, aos poucos somos confrontados com evidências de que nossa aparente lógica é muito menos cartesiana do que acreditávamos, e que nossos raciocínios são fortemente dirigidos por nossas emoções.

Essas evidências mostraram que, quando as pessoas estão altamente confiantes em uma decisão que tomaram, elas acatam facilmente qualquer informação que apoie sua decisão, mas simplesmente não processam informações que a contradiz.

Isso ajuda a explicar os processos neurais que contribuem para o chamado "viés de confirmação", entrincheirado nos processos de pensamento da maioria das pessoas.

"Nosso estudo descobriu que nosso cérebro se torna cego a evidências contrárias quando estamos altamente confiantes, o que pode explicar por que não mudamos de ideia à luz de novas informações," afirmou o professor Max Rollwage, da Universidade College de Londres.

Viés de confirmação

Neste experimento, 75 participantes realizaram uma tarefa simples: Julgar se uma nuvem de pontos estava se movendo para o lado esquerdo ou direito da tela do computador. Eles então tinham que dar uma classificação de confiança (quão certos eles estavam em sua resposta), em uma escala variável de 50% a 100% de certeza.

Após essa decisão inicial, os pontos em movimento foram mostrados novamente e os voluntários eram convidados a tomar uma decisão final. Nessa segunda vez, as informações foram ainda mais claras, permitindo ajudar os participantes a mudar de ideia se eles tivessem cometido um erro inicialmente.

O que ocorreu foi que as pessoas mais confiantes em sua decisão inicial raramente usaram estas novas informações para corrigir seus erros.

E esta segunda etapa foi diferente para um terço dos participantes: 25 deles foram para um escâner cerebral de magnetoencefalografia (MEG), onde sua atividade cerebral foi monitorada enquanto eles processavam o movimento dos pontos.

Com base nessa atividade cerebral, os pesquisadores avaliaram o grau em que cada um processava as informações adicionais da segunda etapa. Aqueles que não estavam muito confiantes em sua escolha inicial integraram as novas evidências com precisão. No entanto, aqueles altamente confiantes em sua escolha inicial, mostraram uma atividade cerebral na qual eles pareciam praticamente cegos para as informações que contradiziam sua decisão inicial, mas permaneciam sensíveis às informações que confirmavam sua escolha.

Viés de confirmação

Os pesquisadores afirmam que, em cenários do mundo real, onde as pessoas estão mais motivadas a defender suas crenças, o efeito pode ser ainda mais forte.

"O viés de confirmação é frequentemente investigado em cenários que envolvem decisões complexas sobre questões como política. No entanto, a complexidade de tais opiniões dificulta o desembaraço de vários fatores que contribuem para o viés, como querer manter a autoconsistência com nossos amigos ou grupo social. Ao usar tarefas perceptivas simples, nós conseguimos minimizar essas influências motivacionais ou sociais e identificar fatores que alteram o processamento de evidências que contribuem para o viés de confirmação," ressaltou o pesquisador Steve Fleming.

Checagem com artigo científico:

Artigo: Confidence drives a neural confirmation bias
Autores: Max Rollwage, Alisa Loosen, Tobias U. Hauser, Rani Moran, Raymond J. Dolan, Stephen M. Fleming
Publicação: Nature Communications
Vol.: 11, Article number: 2634
DOI: 10.1038/s41467-020-16278-6
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