15/04/2019

Conheça o Candida auris, o perigoso fungo que se espalha pelo mundo

Com informações da BBC
Fungo Candida auris
Amostra do fungo Candida auris - auris significa orelha em latim, porque o fungo foi descoberto em 2009 no canal auditivo de uma paciente.
[Imagem: Shawn Lockhart/CDC]

Fungo resistente a medicamentos

Um fungo resistente a medicamentos e que pode ser fatal para pessoas com imunidade baixa está se espalhando pelo mundo inteiro.

O Candida auris foi descoberto apenas em 2009, mas está chamando a atenção dos médicos, cientistas e autoridades de saúde porque é resistente a virtualmente todos os antifúngicos conhecidos.

O alarme soou quando o fungo se espalhou por um quarto de um hospital de Londres e resistiu a uma quarentena. Para exterminá-lo foi necessário trocar até partes do teto e dos ladrilhos do piso.

Depois de ter aparecido na Coreia do Sul e no Japão, agora já há relatos de surtos na Índia, na África do Sul, na Venezuela, na Colômbia, nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Espanha - ou seja, uma contaminação em escala global.

"Uma aparição assim simultânea não tem precedentes. E o que mais nos preocupa é que todas as variantes mostraram uma forte resistência aos remédios," disse a professora Johanna Rhodes, do Imperial College de Londres.

Candida auris

O fungo é da mesma família do Candida albicans, um dos principais causadores de candidíase, mas são espécies bem diferentes.

A candidíase por C. albicans é uma doença comum que pode afetar a pele, as unhas e órgãos genitais, e é fácil de tratar. Já a infecção pelo Candida auris é resistente a medicamentos e pode ser fatal, sobretudo para pacientes com imunidade baixa ou em longas internações.

De acordo com o infectologista Alberto Colombo, professor da Unifesp e especialista em contaminação com fungos, é possível ser contaminado de forma passageira pelo C. auris na pele ou na mucosa sem ter problemas. O fungo apresenta risco real se contaminar a corrente sanguínea.

Para a pessoa ser infectada, é preciso que tenha sofrido procedimentos invasivos (como cirurgias, uso de catéter venoso central) ou tenha o sistema imunológico comprometido. Pacientes internados em unidades de terapia intensiva por longos períodos e com uso prévio de antibióticos ou antifúngicos também são considerados grupo de risco para a contaminação.

Algumas pesquisas apontam um índice de mortalidade de 59% para infecções com C. auris, segundo o médico André Mário Doi, patologista do setor de microbiologia do Hospital Albert Einstein e autor de estudos sobre a espécie.

Evolução do fungo

O infectologista Alberto Colombo acredita que esse surgimento inédito de um fungo resistente aos medicamentos deve-se ao uso exagerado dos próprios medicamentos e de agrotóxicos.

"O Candida auris sofreu um processo de especialização. Nasceu em uma época em que há muito uso de substâncias antimicrobianas, muitos antifúngicos, e nesse ambiente de pressão seletiva a espécie se torna resistente," afirmou.

O processo é bem parecido com o de surgimento das bactérias resistentes a antibióticos. Os antifúngicos matam quase todos os fungos, mas alguns sobrevivem, justamente os que possuem mutações que os tornam resistentes ao medicamento - que para eles é um veneno. Estes se reproduzem, e as gerações seguintes herdam os genes que tornaram os antepassados resistentes. A espécie vai, assim, se tornando cada vez mais resistente aos medicamentos.

Mais de 90% das infecções causadas pelo C. auris são resistentes ao menos a um medicamento, enquanto 30% são resistentes a dois ou mais remédios.

Brasil despreparado

O hospital em Londres onde Rhodes identificou o fungo em 2015 acabou conseguindo erradicá-lo, mas não foi fácil. Uma das principais "habilidades" adquiridas pelo C. auris é a de persistir no ambiente inanimado, ou seja, ficar vivo fora do corpo humano. "Ele contamina o ambiente hospitalar e fica vivo por semanas," disse Colombo.

Não existe nenhum caso confirmado de infecção no Brasil até agora. Mas como o fungo é difícil de identificar, isso não quer dizer que ele não tenha entrado no país. "Com a globalização e o fato de a doença sobreviver muito tempo em superfícies inanimadas, o risco da doença chegar ao Brasil é grande", alerta Alberto Colombo.

E a maioria dos laboratórios do país - e do continente - não está preparada para identificá-lo.

"Temos um sistema de vigilância muito preparado para detectar surtos de bactérias e vírus, mas não temos o mesmo sistema para detecção de fungos", afirma Colombo. "O sistema de saúde, tanto público quanto privado, com raras exceções, não têm condições de identificar corretamente o fungo."


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