11/07/2019

Monitorar as mutações do vírus da gripe exige esforço internacional

Com informações da Agência Brasil

H1N1

A ocorrência de mutações no vírus influenza, causador da gripe, é uma possibilidade permanente. Por essa razão, é imprevisível quando ocorrerá uma nova pandemia da doença.

A última ocorreu há exatos 10 anos, quando o H1N1, um subtipo do vírus influenza A, se disseminou em escala mundial, provocando o que ficou conhecido na época como a crise da "gripe suína".

Diante do risco de novas pandemias, o monitoramento é fundamental para identificar com eficácia e rapidez as variações virais que circulam nos países, sobretudo no inverno, quando a transmissão se intensifica.

Conforme explica a virologista Marilda Siqueira, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), por meio do sequenciamento genético é feito o acompanhamento da evolução do vírus. O compartilhamento desses dados científicos permite a adoção de respostas rápidas para combater a circulação do vírus, como captar os primeiros casos precocemente e disponibilizar um atendimento eficiente.

Foi esse acompanhamento que possibilitou também o rápido desenvolvimento da vacina no caso do H1N1, ajudando as populações mundiais a criarem resistência ao vírus que se alastrou a partir de junho de 2009. O imunizante ficou disponível em setembro, três meses após o início das transmissões.

H3N2

Uma nova pandemia não deve ocorrer com o H1N1. Atualmente, no Brasil, apesar de ainda ocorrerem óbitos, eles estão dentro de um padrão esperado. No país, é alta a probabilidade de se ter contato no inverno com dois subtipos do vírus influenza A contra os quais as populações estão mais resistentes. Um deles é exatamente o H1N1 e o outro é o H3N2. A questão é que o vírus influenza tem um genoma segmentado, característica que, segundo Marilda, facilita as mutações.

"Se você troca um ou mais segmentos gênicos inteiros, vira outra coisa. E podemos ter novo vírus para o qual não temos anticorpo e nem vacinas eficazes. Em alguns lugares da Ásia, as pessoas estão atualmente contraindo de animais o H7N9, e a taxa de letalidade está em torno de 70%. Não foi observado contágio de homem para homem, então não há transmissão sustentada. Mas é uma preocupação enorme e o mundo inteiro está de olho para entender o que está acontecendo com esse vírus," diz a virologista.

A partir do momento em que um vírus mutante se mostra transmissível entre humanos, pode haver rápida disseminação entre uma população sem imunidade. Ao atingir grande número de indivíduos, torna-se uma epidemia enquanto estiver restrita a uma certa localidade. A pandemia se configura quando a epidemia se espalha por uma grande região geográfica, como um continente ou até mesmo o planeta.

Monitorar as mutações do vírus da gripe envolve esforço internacional
Os cientistas reconstruíram o vírus da gripe espanhola de 1918 para tentar entender melhor essa que foi uma das maiores pandemias da história.
[Imagem: Yoshihiro Kawaoka]

Sistema Global de Vigilância

O acompanhamento internacional é feito por meio do Sistema Global de Vigilância e Resposta à Influenza da Organização Mundial da Saúde (OMS), que reúne diversas instituições. O Laboratório de Vírus Respiratório e do Sarampo da Fiocruz é uma delas.

O monitoramento também é importante para enfrentar as epidemias sazonais, que ocorrem sempre no inverno com mais ou menos intensidade conforme uma série de fatores. De acordo com Marilda, há quatro tipos de vírus influenza, sendo o A e o B os principais responsáveis pela gripe, o C e o D sem impacto relevante conhecido. O A é o que mais preocupa, por ser altamente mutável. O monitoramento das variações é uma das etapas da produção da vacina.

A produção da vacina da gripe sofre alterações constantemente. A OMS realiza reuniões em setembro para discutir o cenário do Hemisfério Sul do planeta e, em fevereiro, para o Hemisfério Norte. Nesses encontros, são analisados os resultados dos monitoramentos feitos pelas instituições que integram o sistema de vigilância. A próxima vacina deverá imunizar contra as principais variações virais que foram identificadas circulando no inverno que precede a reunião.

"É sempre uma corrida contra o tempo, pois é curto o prazo para que a vacina esteja disponível antes do próximo inverno," disse Marilda.

Epidemias de gripe

A maior pandemia de gripe de que se tem notícia ocorreu em 1918 e ficou conhecida como "gripe espanhola". O número de vítimas foi muito superior ao ocorrido em 2009. Segundo a OMS, entre 20 e 40 milhões de mortes ocorreram em todo o mundo. A Europa foi o continente mais afetado.

A virologista da Fiocruz acredita que dificilmente viveremos uma situação semelhante. "O risco não é totalmente descartado. Mas nessa magnitude é bem difícil. As condições socioeconômicas daquela época e também as condições médicas eram muito piores do que temos hoje em dia", avalia Marilda.

Segundo ela, uma dificuldade na época foi a inexistência de antibióticos, que só foram criados na década de 1930. "Na pandemia, uma boa parcela das mortes não ocorre de pneumonia viral, mas de uma pneumonia bacteriana secundária que se aproveita da fragilidade do organismo. E, naquela época, não havia antibióticos para combater essas bactérias. Além disso, a Europa enfrentou essa situação saindo da Primeira Guerra Mundial, com a produção de alimentos afetada, os serviços de saúde fragilizados", diz.

A mutação que levou à "gripe espanhola" não surgiu na Espanha e sim nos Estados Unidos. A gripe se espalhou por soldados norte-americanos infectados que foram combater na Primeira Guerra Mundial. "Como os países estavam em combate, não se percebeu que muitas mortes estavam ocorrendo em decorrência de outra coisa. Foi só quando esse vírus chegou na Espanha, que não participou da guerra, que ficou claro que algo estranho estava ocorrendo. Ao notar um número incomum de mortes por doença respiratória, os espanhóis deram o alerta".


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