05/08/2019

Quando uma receita para um problema de visão causa outro

Redação do Diário da Saúde
Quando uma receita para um problema de visão causa outro
O erro de percepção de distância e profundidade ocorre porque o cérebro processa imagens de diferentes contrastes a velocidades diferentes.
[Imagem: Johannes Burge/Current Biology]

Monovisão

À medida que envelhecemos, nossos olhos perdem a capacidade de focalizar de perto. É uma condição chamada presbiopia, que é comum e relativamente fácil de corrigir, com soluções como óculos de leitura, lentes bifocais ou lentes progressivas, ou multifocais.

Outra correção comum, chamada monovisão, resolve o problema com lentes diferentes em cada olho, uma que foca nas proximidades, e outra que foca à distância.

Para ajustar as diferenças de desfoque causadas pelo uso de lentes diferentes, o cérebro suprime a imagem mais borrada e preferencialmente processa a imagem mais nítida, melhorando efetivamente a profundidade de campo.

Atualmente, milhões de pessoas usam a monovisão para corrigir a presbiopia e, à medida que a população envelhece, esse número provavelmente crescerá. Mas talvez não devesse.

Uma equipe da Universidade da Pensilvânia (EUA) e do Instituto de Óptica de Madri (Espanha) descobriu que a monovisão pode causar percepções equivocadas de distância e da direção 3D de objetos em movimento.

Além disso, quanto mais longe os objetos estão e quanto mais rápido eles se movem, maiores se tornam os erros de percepção.

"Imagine que você está dirigindo um carro, chegando a um cruzamento. Um ciclista está cruzando à sua frente a 15 quilômetros por hora. Se você calcular, a percepção equivocada de profundidade será de quase três metros. Isso é um algo relevante - essa é a largura de uma faixa de tráfego," disse o professor Johannes Burge, um dos coordenadores do estudo.

Efeito Pulfrich

Esta nova linha de pesquisa está relacionada ao efeito Pulfrich, uma ilusão de percepção descoberta há 100 anos pelo físico alemão Carl Pulfrich.

Para entender esse efeito, imagine um pêndulo de relógio balançando de um lado para o outro. Se você olhar o pêndulo com um olho escurecido - através de um par de óculos de sol com uma lente faltando, por exemplo - o pêndulo não parecerá se mover de um lado para outro, mas sim em uma trajetória elíptica que muda de profundidade. O mesmo efeito ocorre para imagens com contraste diferente, como olhar através de um par de óculos com uma lente embaçada.

A ilusão acontece porque o cérebro processa a imagem mais escura (ou com menos contraste) milissegundos mais lentamente do que a imagem mais clara (ou com maior contraste). Para imagens em movimento, o atraso de processamento causa o que é chamado de "disparidade binocular neural", o que significa que a localização real da imagem na parte de trás do olho não coincide com a estimativa do sistema visual. Um princípio semelhante explica como funcionam os filmes em 3D.

O brilho e a variação de contraste entre os olhos causam o efeito clássico de Pulfrich. A monovisão induz diferenças de obscurecimento entre os olhos, e o borrão reduz o contraste, também gerando o efeito Pulfrich.

Usando um aparelho chamado haploscópio - essencialmente, uma versão de laboratório de uma sala de cinema 3D - eles mediram o efeito de diferentes correções semelhantes à monovisão. Surpreendentemente, os participantes experimentaram um efeito Pulfrich reverso em vez de um clássico. Em vez de ser processada mais lentamente, a imagem desfocada foi processada em milissegundos mais rapidamente do que a imagem nítida. Mas o erro de percepção foi o mesmo.


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