11/03/2020

Quem acredita que o sistema econômico é justo importa-se menos com a desigualdade

Redação do Diário da Saúde
Quem acredita que o sistema econômico é justo importa-se menos com a desigualdade
Até mesmo o modo de falar sobre a desigualdade muda como as pessoas olham para o problema.
[Imagem: CC0 Public Domain/Pixabay]

Justificadores e críticos do sistema

As pessoas que acreditam que o sistema econômico capitalista é justo e legítimo reagem menos negativamente a manifestações extremas de disparidade econômica - como moradores de rua, sem-terras e subempregados.

E essas diferenças na reatividade são detectáveis até no nível fisiológico.

"Pesquisas mostram que as pessoas geralmente têm aversão a distribuições desiguais de recursos, um exemplo do qual pode ser uma pessoa que vemos dormindo em uma calçada ou sem acesso a necessidades básicas, saúde e educação. No entanto, muitas pessoas prestam pouca atenção a ou não são incomodadas pelas crescentes disparidades econômicas, respostas que alguns podem ter dificuldade em entender.

"Esta pesquisa começa a explicar essas diferenças: Crenças que legitimam e justificam o sistema econômico diminuem nossa profunda aversão à desigualdade, protegendo-nos das emoções negativas em resposta a ela," explica Shahrzad Goudarzi, da Universidade de Nova York (EUA).

Reações à desigualdade

Os cientistas conduziram uma série de seis experimentos, dois online com o público em geral e quatro pessoais com estudantes universitários.

Aqueles que acreditavam que o sistema econômico capitalista era justo, legítimo e justificado ("justificadores do sistema"), em comparação com aqueles que não acreditavam nisso, relataram sentir menos emoções negativas depois de assistir a vídeos mostrando pessoas sem-teto.

Os estudos realizados pessoalmente replicaram esses dados e adicionaram um novo componente: As respostas fisiológicas dos participantes foram medidas através da avaliação dos níveis de condutância da pele e movimentos sutis dos músculos faciais. Esse método fornece uma contabilidade mais profunda de nossas respostas, porque captura reações involuntárias a estímulos, como excitação negativa e sofrimento emocional.

Aqui, os justificadores do sistema econômico mostraram níveis comparativamente baixos de afeto e excitação negativos enquanto observavam moradores de rua. Em comparação, a justificação do sistema econômico não se mostrou associada a reações emocionais aos vídeos de controle, que não mostravam desigualdades sociais.

Não me importo

Um experimento final foi um passo além, visando capturar emoções no contexto da vida cotidiana das pessoas. Os estudantes de graduação receberam quatro mensagens de texto por dia durante nove dias consecutivos, levando-os para uma pequena pesquisa online pelo celular. Duas das pesquisas diárias foram projetadas para medir as reações à desigualdade econômica, uma pesquisa pedindo aos participantes que indicassem se haviam encontrado alguém que consideravam muito pobre e outra se haviam encontrado alguém muito rico em relação a si mesmos - a ordem dessas pesquisas foi aleatória ao longo dos dias.

De forma consistente com os experimentos anteriores, aqueles identificados como "justificadores do sistema" relataram menos emoções negativas após a exposição diária a pessoas ricas e pobres do que as pessoas que eram mais críticas aos problemas do sistema econômico.

Checagem com artigo científico:

Artigo: Economic system justification predicts muted emotional responses to inequality
Autores: Shahrzad Goudarzi, Ruthie Pliskin, John T. Jost, Eric D. Knowle
Publicação: Nature Communications
Vol.: 11, Article number: 383
DOI: 10.1038/s41467-019-14193-z

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