16/07/2020

Resistência às superbactérias varia individualmente

Com informações do IGC
Resistência de bactérias aos antibióticos varia individualmente
A descoberta ressalta a importância de tratamentos personalizados, conforme a capacidade de reação de cada paciente.
[Imagem: Luís Leónidas Cardoso et al. - 10.1038/s41559-020-1235-1]

Reação individual

A resistência aos antibióticos é um desafio crescente no tratamento de doenças infecciosas e um problema em escala mundial porque as bactérias tornam-se resistentes aos medicamentos, podendo tornais fatais infecções que seriam facilmente controladas há poucos anos.

As bactérias vencem os antibióticos através de mutações ou adquirindo genes que lhes permitem sobreviver na presença destes fármacos que seriam capazes de matá-las em sua conformação original.

No entanto, esta vantagem na presença dos antibióticos pode trazer implicações para a bactéria quando o fármaco deixa de ser administrado. Isto porque a aquisição da resistência afeta genes que garantem funções essenciais da célula bacteriana e, uma vez que ela retorna ao contexto original, sem antibióticos, a bactéria deixa de estar tão apta para competir pela sua sobrevivência.

Até agora, muito do que se sabe sobre este processo resulta de estudos em sistemas artificiais, que fornecem uma perspectiva incompleta da complexidade deste fenômeno.

Para preencher esta lacuna, a equipe da professora Isabel Gordo, do Instituto Gulbenkian de Ciências (Portugal), recorreu a cobaias como modelo de estudo e identificou que, e após a ingestão de antibióticos, a competição pela sobrevivência das bactérias resistentes adquire dinâmicas muito diferentes ao longo do tempo - e, mais importante, essa dinâmica varia de indivíduo para indivíduo.

Assim, a mesma resistência identificada geneticamente nas bactérias gera interações diferentes com o hospedeiro, fazendo com que num indivíduo a bactéria resistente tenha baixa capacidade de sobrevivência na ausência dos antibióticos, e que, num outro indivíduo, essa capacidade seja alta.

Microbiota

Recorrendo à bactéria Escherichia coli, a equipe descobriu que o que determina se a bactéria resistirá ou não aos antibióticos é a flora intestinal (ou microbiota) de cada indivíduo.

"Observamos que, nos camundongos sem microbiota, não existem diferenças nas dinâmicas de sobrevivência das bactérias resistentes, que sofrem sempre um dano e não conseguem sobreviver," explicou Isabel. Pelo contrário, camundongos com floras intestinais muito diversas mostraram uma "grande variabilidade na dinâmica de sobrevivência das bactérias resistentes, específica de cada hospedeiro, estabelecendo uma relação causal entre a microbiota individual e a sobrevivência das bactérias resistentes aos antibióticos".

A boa notícia é que, ao longo do tempo, à medida que a microbiota estabiliza depois que o indivíduo tomou os antibióticos, a resistência deverá desaparecer em todos os hospedeiros - a menos que as bactérias compensem os efeitos negativos. E a equipe prevê que também a aquisição de mecanismos de compensação depende da composição da microbiota característica de cada indivíduo.

Com estas informações, a equipe está se dedicando agora a encontrar o calcanhar de Aquiles das bactérias resistentes no intestino, estudo que estamos desenvolvendo em vários ângulos. Pelo menos uma das hipóteses está dando ótimos resultados: Mesmo quando colonizam o intestino com a condição menos ideal, estamos conseguindo eliminá-las mais depressa!", revelou Isabel.

Checagem com artigo científico:

Artigo: Dysbiosis individualizes the fitness effect of antibiotic resistance in the mammalian gut
Autores: Luís Leónidas Cardoso, Paulo Durão, Massimo Amicone, Isabel Gordo
Publicação: Nature Ecology & Evolution
DOI: 10.1038/s41559-020-1235-1

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