Sentir dor pode ser uma profecia autorrealizável

Sentir dor pode ser uma profecia autorrealizável
Pesquisadores brasileiros desenvolveram um aparelho que reduz dor da fibromialgia com aplicações nas mãos.
[Imagem: IFSC]

Profecia autorrealizável

Ao analisar imagens cerebrais de pacientes, neurocientistas descobriram que, quando as pessoas acham que vão sentir dores intensas, elas realmente sentem, mesmo que não sejam submetidas a estímulos dolorosos.

Surpreendentemente, essas falsas expectativas podem persistir mesmo quando a realidade demonstra o contrário, ou seja, quando se demonstra que a dor não dói tanto assim, tornando as expectativas sobre a intensidade da dor uma espécie de profecia autorrealizável.

"Nós descobrimos que há um ciclo de realimentação positivo entre expectativa e dor," disse Tor Wager, professor de psicologia e neurociência da Universidade do Colorado em Boulder (EUA). "Quanto mais dor você espera, mais forte o seu cérebro responde à dor. Quanto mais forte o cérebro responde à dor, mais dor você espera."

A ideia de profecias autorrealizáveis não é nova, com inúmeros estudos ao longo de décadas mostrando expectativas influenciando de tudo, desde as notas de uma prova até como o corpo responde a um medicamento.

Mas este novo estudo foi o primeiro a modelar diretamente a dinâmica do ciclo de realimentação entre expectativas e dor e os mecanismos neurais subjacentes.

O experimento

Os pesquisadores recrutaram 34 voluntários e os ensinaram a associar um símbolo a pouco calor e outro símbolo a um calor intenso e doloroso.

Em seguida, os voluntários foram colocados em uma máquina de ressonância magnética funcional (fMRI), que mede o fluxo sanguíneo no cérebro como um indicador da atividade neural. Durante 60 minutos, os participantes viam os símbolos de pouca ou muita dor e então avaliavam quanta dor eles esperavam sentir.

Então, graus variados de calor - doloroso, mas não o suficiente para queimar - foram aplicados no antebraço ou na perna, com o mais quente alcançando "a sensação de segurar uma xícara de café quente", explica Wager.

Finalmente, cada voluntário avaliava a intensidade da dor que havia sentido.

O que os participantes não sabiam é que a intensidade do calor não estava de fato relacionada ao símbolo que lhes fora mostrado antes.

Viés de confirmação

Os resultados mostraram que, quando os participantes esperavam mais calor, não apenas as regiões do cérebro envolvidas com a ameaça e o medo eram mais ativadas, mas também as regiões envolvidas na sensação de dor ficaram mais ativas quando o estímulo foi aplicado. Os participantes também relataram mais dor após terem visto o símbolo de calor mais elevado, independentemente de quanto calor eles realmente sentiram.

Surpreendentemente, as expectativas influenciaram a capacidade de aprender com a experiência. Muitos voluntários demonstraram alto "viés de confirmação" - a tendência de aprender com coisas que reforçam nossas crenças e desconsideram aquelas que as contradizem. Por exemplo, quando esperavam muita dor e a sentiam, eles esperavam ainda mais dor na próxima vez. Mas, se esperassem muita dor e não sentissem, nada mudava em sua avaliação do próximo evento.

"Você poderia assumir que, se esperasse muita dor e sentisse muito pouco, saberia melhor da próxima vez. Mas, curiosamente, eles não conseguiram aprender," disse Wager.

Tratamentos da dor

Este fenômeno pode ter impactos importantes no tratamento e na recuperação de condições dolorosas.

"Nossos resultados sugerem que expectativas negativas sobre a dor ou os resultados do tratamento podem, em algumas situações, interferir na recuperação ideal, tanto pelo aumento na percepção da dor quanto impedindo que as pessoas notem que estão melhorando. Por outro lado, expectativas positivas poderiam ter o efeito oposto," disse a pesquisadora Marieke Jepma.

A pesquisa também pode esclarecer por que, para alguns pacientes, a dor crônica pode permanecer por muito tempo após a cicatrização dos tecidos danificados, ou mesmo situações envolvendo diagnósticos como a fibromialgia.


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