06/02/2019

Substância de frutas cítricas é eficaz contra leishmaniose cutânea

Com informações da Fiocruz
Substância de frutas cítricas é eficaz contra leishmaniose cutânea
A molécula natural reduziu em mais de 99% o índice de infecção celular, sem causar danos às células hospedeiras, conta a pesquisadora Luiza Gervazoni.
[Imagem: Gutemberg Brito]

Hidroxiflavanona

Um composto natural presente na casca de frutas cítricas promete um novo tratamento contra a leishmaniose cutânea.

Em testes realizados em laboratório, a substância 2-hidroxiflavanona foi capaz de inibir a proliferação de parasitos Leishmania amazonensis, causadores da infecção, com eficácia semelhante sobre microrganismos sensíveis e resistentes ao principal medicamento usado atualmente no tratamento da doença.

O composto também conseguiu controlar a infecção causada por cepas sensíveis e resistentes em camundongos, considerados modelos experimentais para estudo da doença. Administrada por via oral, a substância se destacou ainda por não apresentar efeitos tóxicos nas análises realizadas.

"Nas doses utilizadas, não foi observado qualquer efeito tóxico nos experimentos em cultura de células e nos ensaios em modelo experimental. As análises in silico [em computador] também indicam que a 2-hidroxiflavanona apresenta características favoráveis para o desenvolvimento de um medicamento, incluindo boa absorção e alta probabilidade de não apresentar toxicidade," contou Luiza Gervazoni, do Instituto Oswaldo Cruz.

Melhor que medicamento atual

O composto natural apresentou desempenho superior ao medicamento de referência mesmo nos testes com parasitos sensíveis, promovendo a cicatrização da lesão de forma mais acelerada.

"O tratamento com 2-hidroxiflavanona, administrado por via oral, reduziu o tamanho da lesão cutânea e diminuiu a carga parasitária em cerca de 99% tanto na infecção causada por parasitos sensíveis, como resistentes. Isso aponta potencial para o desenvolvimento de uma terapia que poderia se tornar a primeira opção de tratamento ou uma alternativa nos casos de resistência," contou o professor Elmo de Almeida Amaral, coordenador da pesquisa.

Os autores destacam, porém, que as análises realizadas são apenas a primeira etapa para o desenvolvimento de um novo tratamento.

"Para ser aprovado, um novo fármaco precisa passar por estudos pré-clínicos em modelos murinos, como camundongos, e não murinos, como primatas. Posteriormente, são realizadas três fases de estudos clínicos, que envolvem pacientes. É um processo longo e caro, mas necessário para garantir a segurança e a eficácia dos tratamentos," esclareceu Elmo.

Os resultados foram publicados na revista científica Plos Neglected Tropical Diseases.

Flavonoides

De acordo com os pesquisadores, o desenvolvimento de novos tratamentos para a leishmaniose cutânea pode ter um alto impacto na qualidade de vida dos pacientes.

Há mais 70 anos, os antimoniais pentavalentes constituem a primeira opção para terapia. Com alta toxicidade, esses medicamentos podem provocar reações adversas que vão de dores articulares, musculares e náusea até alterações cardíacas, pancreáticas e renais. Nos casos de resistência, as alternativas disponíveis são a anfotericina B e a pentadimina, que também apresentam efeitos colaterais importantes.

"O tratamento da leishmaniose é longo, e todos esses fármacos precisam ser administrados por via intramuscular ou intravenosa, o que faz com que o paciente tenha que ser internado ou ir diariamente à unidade de saúde durante meses de terapia", pontua Luiza.

Produzida pelo metabolismo de plantas, a 2-hidroxiflavanona faz parte de um grupo de substâncias chamadas de flavonoides. Encontradas em frutas, vegetais, vinho e café, essas moléculas têm sido cada vez mais estudadas pelo potencial terapêutico, com trabalhos que apontam para ação antiviral, anti-inflamatória, anticancerígena e contra parasitos como Trypanosoma e Leishmania.


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