Doenças negligenciadas continuam esquecidas pela indústria

Doenças negligenciadas continuam
Apesar de avanços, doenças negligenciadas ainda demandam atenção, com poucos fármacos inovadores desenvolvidos nas últimas décadas.
[Imagem: Miguel Boyayan/Revista Pesquisa FAPESP]

Sem lucros

Embora contribuam com 11% da incidência de enfermidades no mundo, as chamadas doenças negligenciadas são alvo de uma pequena fração de medicamentos que são desenvolvidos todos os anos.

São doenças que, por acometerem a parcela mais pobre da humanidade, não são vistas como "atrativas" pela indústria farmacêutica por não terem potencial de gerar altos lucros.

Entre janeiro de 2012 e setembro de 2018, 256 novos fármacos chegaram ao mercado, mas apenas oito, ou 3,1%, tinham como alvo doenças negligenciadas. A marca atual supera a do período entre 1975 e 1999, quando só 1,1% foi direcionado a elas, mas é menor que a do período de 2000 a 2011 em que 4,3% dos medicamentos novos eram voltados para as negligenciadas.

Entre essas doenças "esquecidas" pela indústria estão a malária, as doenças diarreicas, a tuberculose e cerca de 20 doenças outras tropicais negligenciadas reconhecidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), como dengue, chikungunya, doença de Chagas, leishmaniose, entre outras.

Medicamentos reposicionados

O levantamento mais recente sobre essas mazelas foi publicado na revista científica The Lancet Infectious Diseases por dois pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), que mostram que ainda há muito a se fazer, principalmente no que se refere às doenças tropicais negligenciadas.

Nenhum dos novos medicamentos lançados entre 2012 e 2018 foi direcionado para doenças tropicais negligenciadas, mas sim para malária e tuberculose. As novas terapias para a tuberculose (bedaquilina), com um novo mecanismo de ação, e para a malária por Plasmodium vivax (tafenoquina) são novidades marcantes nos últimos 40 e 60 anos, respectivamente.

"Os outros seis fármacos aprovados de 2012 para cá para esse grupo de doenças foram reposicionados, biológicos ou novas formulações. Os reposicionados, por exemplo, eram aplicados no tratamento de outras enfermidades e acabaram sendo aprovados para novos usos clínicos. Em todos os casos não se trata do que chamamos de novas entidades químicas, que são fruto de inovação em relação à diversidade química e aplicação terapêutica," explica o professor Adriano Andricopulo, que assina o artigo com seu colega Leonardo Ferreira.

Metas distantes

A OMS estabeleceu como meta para 2030 acabar com as epidemias de doenças negligenciadas. Além disso, a Declaração de Londres sobre Doenças Tropicais Negligenciadas, de 2012, estabeleceu planos de ação para controlar, eliminar ou erradicar 10 dessas doenças até 2020.

"Ao incorporar ciência e tecnologia na fronteira do conhecimento, a pesquisa e desenvolvimento de medicamentos para doenças negligenciadas progrediu consideravelmente. No entanto, o estudo revela uma grande distância entre o impacto dessas doenças e o desenvolvimento de novas terapias para elas," escreveram os autores.

Os pesquisadores destacam, no entanto, o grande avanço que será a liberação do fexinidazol para tratar a tripanossomíase africana humana, em 2019. "Agora está sendo testado para doença de Chagas", disse Andricopulo.


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