16/06/2026

Cientistas questionam benefícios dos antidepressivos e pedem reavaliação semestral

Redação do Diário da Saúde
Cientistas questionam benefícios dos antidepressivos e pedem reavaliação semestral
Não existem estudos científicos demonstrando benefícios dos antidepressivos usados por mais do que seis meses, dizem os cientistas.
[Imagem: AVAKA/Pixabay]

Repensar uso prolongado de antidepressivos

Pesquisadores das universidades de Adelaide e Queensland (Austrália) afirmam que faltam evidências robustas de que os antidepressivos previnam recaídas além de 12 meses de tratamento.

Mark Horowitz e seus colegas argumentam que os supostos benefícios do uso prolongado de antidepressivos podem estar superestimados devido a um erro fundamental no projeto das pesquisas: Os ensaios clínicos que comparam pacientes que continuam a medicação com aqueles que param abruptamente não separam entre sintomas de abstinência e o retorno da depressão.

Acontece que, argumentam eles, muitas "recaídas" aparentes podem ser, na verdade, efeitos de privação do medicamento.

Os antidepressivos são amplamente prescritos e um terço dos pacientes mantém seu uso por mais de um ano. A maioria dessas prescrições, argumentam os cientistas, são feitas em situações em que os critérios e diretrizes recomendados podem não ser totalmente atendidos.

Enquanto isso, evidências crescentes apontam riscos associados ao uso prolongado dos antidepressivos: Disfunção sexual, embotamento emocional, comprometimento cognitivo, ganho de peso e aumento de problemas de saúde física em idosos. Os sintomas de abstinência podem ser graves e duradouros, persistindo por meses ou mesmo anos.

Recomendações sobre o uso de antidepressivos

O problema central, explicam os pesquisadores, é que sintomas como ansiedade, baixo humor e insônia ocorrem tanto na abstinência de antidepressivos quanto no retorno da depressão. Como os estudos de "prevenção de recaída" não distinguem entre essas causas, eles categorizam erroneamente a abstinência como recaída - o foco desses estudos.

"Se a mesma abordagem fosse aplicada aos cigarros, e sentir-se pior ao parar de fumar fosse interpretado como evidência de que as pessoas deveriam continuar fumando, sabemos que isso seria absurdo. Mas o mesmo tipo de evidência é usado para recomendar antidepressivos de longo prazo," escreveram os pesquisadores em seu artigo.

Para corrigir essa situação, a equipe pede uma revisão do tratamento da depressão a longo prazo, fazendo as seguintes recomendações:

  • Atualização das diretrizes para refletir que não há bons estudos demonstrando eficácia dos antidepressivos no longo prazo;
  • que clínicos gerais reconsiderem a abordagem de "prescrever e esquecer";
  • que pacientes sejam apoiados a fazer escolhas informadas e a interromper os antidepressivos por meio de redução gradual da dose (desmame lento);
  • que haja maior reconhecimento de que a piora dos sintomas ao parar os medicamentos pode estar ligada à abstinência, não à recaída;
  • e que se aborde equívocos como a ideia de que a depressão é causada por um "desequilíbrio químico".

Finalmente, segundo a equipe, abordagens não medicamentosas, como terapias psicológicas, podem oferecer benefícios mais duradouros do que os antidepressivos. Um estudo recente mostrou que praticar corrida é melhor que antidepressivos. "Os riscos de efeitos de abstinência aumentam com a duração do uso - uma razão para interromper os antidepressivos mais cedo do que mais tarde," concluiu a equipe.

Checagem com artigo científico:

Artigo: Continuing antidepressants or not: Evaluating the potential benefits and harms
Autores: Mark A Horowitz, Katharine A Wallis, Joanna Moncrieff
Publicação: Australian Journal of General Practice
Vol.: 55, Issue 6
DOI: 10.31128/AJGP-05-25-7690
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