
Quando 1 + 1 = 0
Cientistas derrubaram mais uma crença científica antiga na genética: A de que herdar duas variantes prejudiciais no mesmo gene sempre agrava a doença.
O que Michelle Tang e colegas do Instituto de Pesquisas do Noroeste do Pacífico (EUA) descobriram é que duas variantes genéticas prejudiciais podem, na verdade, restaurar a função normal daquele gene, inibindo de todo a manifestação da doença ou característica disfuncional.
A pesquisa se concentrou em uma enzima humana chamada argininosuccinato liase (ASL), que desempenha um papel crucial na remoção da amônia tóxica do organismo. Variantes na ASL que diminuem sua atividade causam um dos distúrbios do ciclo da ureia, um conjunto de doenças metabólicas raras e potencialmente fatais.
Ao medir experimentalmente o impacto funcional de milhares de variantes individuais e combinações de variantes, os pesquisadores descobriram que mais de 60% dos pares que eram individualmente prejudiciais podiam, juntos, restaurar a atividade enzimática a níveis saudáveis.
"Este trabalho mostra que as variantes genéticas não atuam de forma independente em muitos casos importantes," disse Tang. "Para um grupo definido de genes, as suposições padrão que usamos para prever o risco de doenças simplesmente não se aplicam."
Erro da genética
Esse fenômeno é conhecido como complementação intragênica, e as teorias diziam que ele deve ocorrer quando o dano causado por uma variante é compensado por outra variante em uma parte diferente da mesma proteína. O mecanismo foi proposto pela primeira vez em 1964 por Francis Crick e Leslie Orgel, mas até hoje não havia sido testado sistematicamente nem demonstrado ser comum ou previsível em larga escala.
Para fazer isto pela primeira vez, tornando as interações genéticas previsíveis, a equipe desenvolveu um modelo baseado em IA que previu com precisão se duas variantes restaurariam a função da proteína. O modelo alcançou uma precisão de quase 100% na previsão da complementação intragênica em ASL, bem como em uma segunda enzima humana, a fumarase, sugerindo que essas regras se aplicam amplamente em todo o genoma humano.
"Demonstramos que, em muitos casos, duas variantes prejudiciais podem trabalhar juntas para restaurar a função da proteína," disse a professora Aimée Dudley. "Esse tipo de interação genética não é uma exceção isolada, mas uma forma disseminada e subestimada pela qual as variantes podem interagir, especialmente em contextos de doenças raras."
Os pesquisadores estimam que aproximadamente 4% dos genes humanos possuem as características estruturais que permitem esse tipo de interação. Para esses genes, as previsões genéticas padrão podem superestimar o risco de doenças, particularmente para pessoas que possuem duas variantes diferentes no mesmo gene.
| Ver mais notícias sobre os temas: | |||
Genética | Diagnósticos | Gravidez | |
| Ver todos os temas >> | |||
A informação disponível neste site é estritamente jornalística, não substituindo o parecer médico profissional. Sempre consulte o seu médico sobre qualquer assunto relativo à sua saúde e aos seus tratamentos e medicamentos.
Copyright 2006-2026 www.diariodasaude.com.br. Todos os direitos reservados para os respectivos detentores das marcas. Reprodução proibida.