12/11/2021

Genes egoístas e DNA lixo podem nos livrar do câncer?

Redação do Diário da Saúde
Genes egoístas e DNA lixo podem nos livrar do câncer?
O rato-toupeira-pelado vive cerca de 10 vezes mais do que roedores similares e parece ser imune ao câncer.
[Imagem: Pittsburgh Zoo/PPG Aquarium]

Rato Matusalém

Outrora chamada de "DNA lixo", uma parte pouco compreendida do nosso genoma pode ser a chave para a prevenção de tumores.

Uma nova pesquisa mostrou agora como os mesmos elementos genéticos que podem causar tumores também podem desencadear a morte de células cancerosas.

A chave está justamente no "DNA lixo" - os cientistas chamam os constituintes dessa parte do genoma de "genes egoístas", porque eles pareciam não lidar com nada mais no corpo humano a não ser consigo mesmos.

O objeto da pesquisa é o modelo por excelência para o envelhecimento, o rato-toupeira cego, que vive nada menos do que 10 vezes mais do que seus parentes roedores - é mais ou menos como se um ser humano vivesse cerca de 900 anos.

Genes não tão egoístas

Em busca de compreender o que torna esses ratos verdadeiros "matusaléns" do reino animal, os pesquisadores descobriram que eles usam "elementos genéticos egoístas" - o nome técnico é retrotransposons, ou retrotransponíveis - para se proteger do câncer.

A descoberta fornece novos insights sobre os mecanismos que matam as células cancerosas e que podem ser úteis no desenvolvimento de futuros tratamentos contra o câncer nos humanos.

"Elementos retrotransponíveis eram tradicionalmente vistos como mutagênicos, que impõem riscos de câncer e antecipam o envelhecimento," contou Yang Zhao, da Universidade de Rochester (EUA). "Nosso novo estudo sugere, no entanto, que os elementos retrotransponíveis podem realmente suprimir os tumores."

Retrotransposons

O genoma humano está repleto de genes repetitivos que não parecem nos beneficiar - são os tais elementos genéticos egoístas -, nada mais fazendo do que se propagar inserindo novas cópias em seus genomas hospedeiros.

Os retrotransposons são os elementos genéticos egoístas mais prevalentes encontrados nos humanos: Aproximadamente 45% do nosso genoma é feito de retrotransposons.

O que os pesquisadores descobriram agora é que os retrotransposons são uma faca de dois gumes: Se eles não forem controlados, podem causar estragos no genoma; mas eles também podem desencadear mecanismos que matam células de proliferação rápida - o tipo de células que induz a formação de tumores.

"Por décadas, as pessoas se concentraram no lado ruim dos retrotransposons como indutores de tumores, uma vez que a atividade dos transposons costuma ser maior nos tumores," explicou a professora Vera Gorbunova, coordenadora da pesquisa. "Nós mostramos que esta atividade elevada de transposon é realmente o que o organismo aproveita para identificar e matar as células cancerosas."

Como usar esta descoberta?

Segundo a equipe, a chave para evitar o câncer e aumentar a longevidade está em manter um equilíbrio entre ativar e suprimir os retrotransposons, o que Gorbunova compara a treinar um cão de guarda: Você quer treinar um cão de guarda para alertá-lo e se defender contra intrusos, mas também não quer que o cão morda cegamente cada pessoa que encontrar.

Os pesquisadores ainda precisam descobrir exatamente como os ratos-toupeira cegos alcançaram o equilíbrio entre ativar e suprimir os retrotransposons. Por enquanto, porém, eles se concentrarão no poder dos elementos genéticos egoístas de serem, bem, não tão egoístas.

"Mesmo que os humanos não tenham evoluído para alavancar os transposons como os ratos-toupeira cegos, nosso estudo mostra que mecanismos semelhantes existem em humanos," disse Gorbunova. "Podemos usar essa informação para inibir o crescimento das células cancerosas, desenvolvendo tratamentos mais seletivos que melhoram a maquinaria celular e os processos já existentes."

Checagem com artigo científico:

Artigo: Transposon-triggered innate immune response confers cancer resistance to the blind mole rat
Autores: Yang Zhao, Ena Oreskovic, Quanwei Zhang, Quan Lu, Abbey Gilman, Yifei S. Lin, Junyue He, Zhizhong Zheng, J. Yuyang Lu, Jina Lee, Zhonghe Ke, Julia Ablaeva, Matthew J. Sweet, Steve Horvath, Zhengdong Zhang, Eviatar Nevo, Andrei Seluanov, Vera Gorbunova
Publicação: Nature Immunology
DOI: 10.1038/s41590-021-01027-8
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