
Com o que sonhamos?
Os sonhos são experiências simultaneamente universais e pessoais, intimamente ligadas à vida em vigília, ainda que muitas vezes distintas dela. Durante o sono, o cérebro gera narrativas dinâmicas moldadas por experiências prévias, crenças, expectativas e mecanismos neuronais que ainda não são plenamente compreendidos.
Os sonhos têm sido objeto de estudo das neurociências, sendo encarados tanto como um modelo privilegiado para investigar a emergência da consciência como uma possível via para compreender as funções do próprio sono.
Diversos estudos sugerem que o conteúdo dos sonhos reflete memórias, preocupações e emoções da vida de cada indivíduo e tem sido associado a processos de aprendizagem, consolidação da memória e regulação emocional.
O que ainda permanece pouco claro é até que ponto os traços individuais estáveis e as experiências partilhadas ao longo do tempo moldam o conteúdo dos sonhos. Para esclarecer esta questão, a Fundação Bial (Portugal) financiou um estudo visando recolher um conjunto de dados prospectivos com relatos de sonhos e de experiências em vigília, que permitisse analisar quantitativa e detalhadamente as características semânticas dos sonhos.
Ao longo de quatro anos, foram recolhidos milhares de relatos de sonhos e de experiências em vigília, que foram então analisados pela equipe.

Tradução da realidade para o sonho
A conclusão geral do estudo é que aquilo com o que sonhamos tem influência direta de traços individuais estáveis, como a atitude face ao ato de sonhar, a propensão para o devaneio mental e a qualidade subjetiva do sono.
Os 3.366 relatos de sonhos e de experiências em vigília, recolhidos junto a 207 adultos, indicam que o conteúdo dos sonhos resulta da interação entre quem somos, os nossos traços e características individuais relativamente estáveis e aquilo que vivemos no dia a dia. Elementos da vida em vigília frequentemente são transformados durante o sono, com fragmentos da realidade remodelados e reorganizados em novas narrativas oníricas.
Em vez de constituírem uma reprodução direta das experiências diárias, os sonhos podem oferecer uma reinterpretação hiperassociativa de eventos passados e expectativas futuras, entrelaçando elementos aparentemente distantes em cenários coerentes, embora frequentemente bizarros.

Sonhos sob estresse
Um segundo conjunto de dados independente, recolhido durante o primeiro confinamento associado à COVID-19 em 2020 (80 participantes), permitiu examinar o impacto de um grande fator de estresse externo na semântica dos sonhos.
Durante o confinamento, os sonhos apresentaram um aumento de referências a limitações e uma maior intensidade emocional, efeitos que se normalizaram gradualmente ao longo dos anos seguintes.
"Este estudo mostra que traços individuais estáveis e experiências circunstanciais moldam conjuntamente o conteúdo e a fenomenologia das experiências oníricas. Os resultados contribuem para reduzir lacunas históricas entre a investigação dos sonhos e a neurociência cognitiva, oferecendo novos conhecimentos e ferramentas que permitirão formular hipóteses testáveis sobre os mecanismos que ligam o conteúdo dos sonhos à consolidação da memória, à regulação emocional e à consciência durante o sono," disse o professor Giulio Bernardi, um dos coordenadores do estudo.
| Ver mais notícias sobre os temas: | |||
Sono | Emoções | Felicidade | |
| Ver todos os temas >> | |||
A informação disponível neste site é estritamente jornalística, não substituindo o parecer médico profissional. Sempre consulte o seu médico sobre qualquer assunto relativo à sua saúde e aos seus tratamentos e medicamentos.
Copyright 2006-2026 www.diariodasaude.com.br. Todos os direitos reservados para os respectivos detentores das marcas. Reprodução proibida.