22/12/2025

Cientistas criam primeiro modelo de tecido cerebral totalmente sintético

Redação do Diário da Saúde
Cientistas criam primeiro modelo de tecido cerebral totalmente sintético
Processo de fabricação do suporte sintético para crescimento de tecido cerebral.
[Imagem: Prince D. Okoro et al. - 10.1002/adfm.202509452]

Tecido sintético

Pela primeira vez, cientistas cultivaram tecido cerebral funcional em laboratório sem precisar adicionar qualquer material de origem animal ou revestimento biológico natural.

Perceba que isto é diferente dos agora famosos organoides, neste caso mais conhecidos como minicérebros, que são órgãos minimalistas desenvolvidos a partir de células vivas e cultivados de modo a lembrar o máximo possível o ambiente natural.

O principal obstáculo na engenharia de tecidos neurais tem sido a dependência de revestimentos biológicos de origem animal, como a laminina, para fazer as células aderirem e proliferarem. Esses componentes são mal definidos, dificultando a reprodutibilidade dos experimentos - um cientista alega conseguir bons resultados, mas outros não conseguem repetir os experimentos.

Paralelamente, a pesquisa neurológica ainda recorre amplamente a cérebros de roedores, que possuem diferenças genéticas e fisiológicas significativas em relação ao cérebro humano, limitando a significância dos resultados e sua tradução para os seres humanos.

Suporte sintético

Prince Okoro e colegas da Universidade da Califórnia de Riverside (EUA) construíram um suporte inovador, feito de um polímero comum e quimicamente neutro, o polietilenoglicol (PEG).

Normalmente as células não aderem ao PEG, mas elas precisam se fixar para se desenvolver. Okoro então descobriu como transformar o PEG em um material biologicamente ativo moldando-o numa estrutura porosa, texturizada e interconectada, que imita a complexidade do ambiente cerebral.

O resultado é uma espécie de teia tridimensional, no qual as células-tronco conseguem se instalar, alimentar-se a partir de nutrientes sintéticos e oxigênio, formando então redes neuronais funcionais e maduras, capazes de apresentar atividade elétrica específica.

Cientistas criam primeiro modelo de tecido cerebral totalmente sintético
O tecido cerebral vivo é considerado sintético porque a cultura não depende da adição de quaisquer materiais de origem animal ou revestimentos biológicos.
[Imagem: Prince D. Okoro et al. - 10.1002/adfm.202509452]

Aplicações

As aplicações deste tecido cerebral sintético são vastas e imediatas. Ele poderá ser usado para modelar doenças como Alzheimer, acidentes vasculares cerebrais (AVC) e traumatismos cranianos de forma mais precisa e, sobretudo, caracteristicamente humana, reduzindo ou eliminando a necessidade de testes em animais.

A estabilidade do material também permite estudos de longo prazo com células maduras, que refletem melhor a função do tecido real.

A longo prazo, a equipe pretende integrar este modelo a culturas de outros órgãos, criando um sistema interconectado que simule como diferentes partes do corpo interagem, um passo crucial para uma compreensão integrada da biologia humana e do desenvolvimento de medicamentos mais seguros e eficazes.

Checagem com artigo científico:

Artigo: Bicontinuous Microarchitected Scaffolds Provide Topographic Cues That Govern Neuronal Behavior and Maturation
Autores: Prince D. Okoro, Kevin Dalsania, Shiril B. Iragavarapu, Benjamin Dela Cruz, Aihik Banerjee, Merve Basaranbilek, Martin F. Haase, Bahman Anvari, Iman Noshadi
Publicação: Advanced Functional Materials
DOI: 10.1002/adfm.202509452
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