14/04/2022

Tratamento de pessoas autistas deve mudar completamente, defendem cientistas

Redação do Diário da Saúde
Tratamento de pessoas autistas deve mudar completamente, defendem cientistas
Alguns cientistas sugerem que o autismo pode ter surgido porque ficamos iguais demais.
[Imagem: ArtsyBeeKids/Pixabay]

Mais semelhanças que diferenças

Ao contrário do que a quase totalidade dos estudos neurocientíficos vêm mostrando, na verdade existem semelhanças fundamentais no processamento mental de pessoas autistas e de pessoas não autistas.

É o que acaba de demonstrar uma equipe de neurocientistas sediada na Universidade de Bath (Reino Unido), que se concentrou em analisar o cérebro de autistas e não autistas em tarefas similares, observando semelhanças e diferenças - a norma das pesquisas neurocientíficas até hoje tem sido procurar apenas as diferenças.

O cérebro processa informações usando dois sistemas: Sistema 1, para julgamentos intuitivos mais rápidos, e Sistema 2, para pensamento racional mais lento. Os cientistas acreditam que estes sistemas funcionam de forma diferente nas pessoas autistas, o que explicaria as dificuldades que elas podem experimentar na vida cotidiana e no trabalho.

No entanto, este estudo mais detalhado mostrou agora que esses sistemas psicológicos fundamentais não são prejudicados em pessoas autistas como os cientistas pensavam. Neste que é maior estudo desse tipo, que envolveu mais de 1.000 pessoas, os pesquisadores testaram a ligação entre o autismo e o pensamento intuitivo, mais rápido, e o pensamento racional, mais lento.

A quantidade de voluntários pesquisados é crucial, conforme demonstrou uma análise recente, que revelou que estudos neurocientíficos com poucos voluntários não têm resultados confiáveis.

Autistas não são limitados

Em três experimentos, eles analisaram a ligação entre traços de personalidade autista e estilo de pensamento. No quarto, eles compararam 200 autistas e mais de 200 não autistas.

No geral, os resultados mostraram que as pessoas autistas pensam tão rápido e racionalmente quanto as pessoas não autistas.

Os pesquisadores concluem que certos processos mentais fundamentais são mais semelhantes entre as pessoas autistas e não autistas do que se pensava anteriormente. À luz dessas descobertas, eles pedem uma mudança na maneira como a sociedade pensa sobre o autismo como um transtorno de processamento mental.

"Se continuarmos a dizer aos autistas e à sociedade em geral que os autistas 'pensam de forma diferente' - por mais bem-intencionado isso possa ser - isso levará a estereótipos e auto-estereótipos, de tal forma que as pessoas autistas se restrinjam a pensar de certas maneiras e, portanto, fazer determinados tipos de trabalho. Nossa pesquisa não dá sustentação a essa ideia e, em vez disso, indica que as pessoas autistas geralmente pensam de maneira muito semelhante às pessoas não autistas e não devem ser restringidas a determinadas tarefas em ambientes educacionais e de trabalho," disse Dr Punit Shah, coordenador da pesquisa.

Mudanças nos cuidados dos autistas

Os pesquisadores recomendam que pode ser importante redesenhar o suporte educacional, clínico e no local de trabalho para pessoas autistas e suas famílias. O apoio deve ser muito mais direcionado, em vez de assumir que todos os autistas têm dificuldades de processamento mental, dizem eles.

A equipe argumenta que a exigência de fazer "ajustes razoáveis" nas organizações educacionais e comerciais, sustentada por leis em diversos países, como permitir tempo extra em exames e estender prazos, não é uma maneira baseada em evidências para dar suporte às pessoas neurodivergentes.

Em vez disso, podem ser necessárias mudanças mais fundamentais, como mudar os ambientes sociais e sensoriais e torná-los mais equitativos para que as pessoas autistas se saiam bem.

"Muitos empregadores e organizações assumem que a neurodiversidade se refere simplesmente a celebrar as diferenças entre as pessoas. Mas uma abordagem abrangente à neurodiversidade deve entender e celebrar semelhanças entre 'neurodivergentes' e pessoas 'neurotípicas' também. Nossa pesquisa vai não apenas subsidiar e melhorar o projeto de intervenções clínicas e educacionais para o autismo, como pode também ajudar a quebrar os estereótipos sobre como as pessoas autistas pensam e se comportam, colocando-nos mais perto de uma abordagem baseada em evidências para a neurodiversidade." concluiu o Dr Shah.

Checagem com artigo científico:

Artigo: Rethinking fast and slow processing in autism
Autores: E. C. Taylor, G. D. Farmer, L. A. Livingston, M. J. Callan, P. Shah
Publicação: Journal of Psychopathology and Clinical Science
DOI: 10.1037/abn0000734
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