
Autismo como condição tratável
Pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Diego (EUA) estão propondo um novo modelo biológico unificado para explicar o transtorno do espectro autista (TEA), sugerindo que até metade dos casos pode ser passível de prevenção ou redução com intervenções precoces.
A proposta consiste em nada menos do que redefinir o autismo como um distúrbio tratável da comunicação celular e do metabolismo energético, dando uma explicação mais coerente sobre como predisposições genéticas e exposições ambientais se combinam para desencadear a condição.
O problema central abordado pelo modelo é a visão fragmentada das causas do autismo, tradicionalmente dividida entre origens puramente genéticas ou apenas ambientais. Essa divisão tem dificultado a criação de estratégias preventivas e terapêuticas eficazes.
Três fatores do autismo
O novo modelo de três fatores propõe que o TEA surge da convergência de uma predisposição genética, que torna as células sensíveis, de um gatilho ambiental inicial, como uma infecção ou a poluição, e da ativação prolongada de uma resposta de estresse celular chamada "Resposta de Perigo Celular".
Quando essa resposta metabólica, destinada a proteger a célula, permanece cronicamente ativada nos primeiros anos de vida, ela desvia recursos essenciais do desenvolvimento cerebral normal, prejudicando a formação dos circuitos neuronais típicos, desencadeando o autismo, explicando porque a condição se expressa de maneiras tão diferentes de uma criança para outra - recentemente foram catalogados quatro tipos específicos de autismo.
"Nossos resultados sugerem que o autismo não é o resultado inevitável de um único gene ou exposição, mas sim o desfecho de uma série de interações biológicas, muitas das quais podem ser modificadas," disse o professor Robert Naviaux. "Ao entendermos como esses fatores genéticos e ambientais se combinam para alterar a trajetória de desenvolvimento de uma criança, podemos começar a imaginar cuidados preventivos e novas abordagens de tratamento que antes eram consideradas impossíveis."

Redefinição do autismo
A proposta, que agora deverá ser discutida pela comunidade científica, estabelece o mecanismo central do autismo na sinalização purinérgica, onde o ATP extracelular funciona como um mensageiro químico de perigo para as células.
Em crianças geneticamente predispostas, exposições ambientais repetidas podem travar esse sistema de alarme na posição "ligado", criando um estado metabólico crônico que prejudica o neurodesenvolvimento. O modelo integra, pela primeira vez, observações diversas sobre o autismo - como disfunção mitocondrial, alterações no microbioma intestinal e hipersensibilidade sensorial - em um único mecanismo biológico.
Se esta nova visão estiver correta - se ela conseguir explicar até metade dos casos, como os cientistas propõem - as consequências serão transformadoras, passando o foco para a prevenção e a intervenção precoce, tentando evitar o desenvolvimento do autismo em primeiro lugar. O estudo sugere que, identificando gestações e bebês em alto risco através de triagem metabolômica e de autoanticorpos, poderá ser possível interromper a cascata metabólica antes que os sintomas se consolidem.
Nessa linha, as estratégias poderão incluir o desenvolvimento de novos fármacos antipurinérgicos, para modular a sinalização do ATP, além de suporte metabólico personalizado. Esta nova perspectiva não só abre caminho para possíveis terapias que reequilibrem a bioquímica cerebral, como também promete deslocar o foco da gestão de sintomas para a prevenção ativa, potencialmente alterando o curso de desenvolvimento de milhões de crianças.
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